sábado, 3 de dezembro de 2016

THE BEATLES AT THE HOLLYWOOD BOWL - 2016

No dia 29 de agosto de 1965, os Beatles se apresentaram no Hollywood Bowl. Como no ano anterior, o concerto no local foi gravado com a intenção de lançamento de um álbum ao vivo que só veria a luz do dia muitos anos depois.
O lançamento de um álbum ao vivo dos Beatles gravado no Hollywood Bowl foi anunciado pela imprensa diversas vezes durante a década de 70. Em 72 surgiu a notícia de que o disco seria para combater o volume crescente de discos piratas. Um ano e meio depois, falou-se mais uma vez do lançamento. Foi divulgado que o LP seria a gravação de uma apresentação no Hollywood Bowl, em Los Angeles, em 23 de agosto de 1964. Nada. Em 1977, falou-se novamente na divulgação de um álbum ao vivo dos Beatles, mas agora com a notícia de que incluiria gravações da apresentação de 1964 e de outra de 29 de agosto de 1965. Dessa vez, o disco saiu, e a espera dos fãs compensou. A eletricidade na atmosfera dos shows é captada perfeitamente, com os gritos de 17 mil fãs enlouquecidos! A desvantagem é que, com todo esse ruído, o disco não pode ser considerado técnica ou musicalmente perfeito. Das 13 faixas, seis (All My Loving, She Loves You, Things We Said Today, Roll Over Beethove, Boys e Long Tall Sally) foram gravadas na apresentação de 1964. As sete restantes, (Twist And Shout, She’s a Woman, Dizzy Miss Lizzy, Ticket to Ride, Can’t Buy Me Love, A Hard Day’s Night e Help!, são de 65. Elas foram editadas em sequência (como se fossem de um único show) por George Martin e formam um disco muito bom. Uma vez que as gravações foram feitas com antigos gravadores de três canais, foi necessário transferi-las para uma fita de 16 canais antes que George Martin e seu fiel engenheiro de estúdio Geoff Emerick pudessem filtrar, equalizar e editar o material. O principal problema do processo era que, com o uso contínuo do aparelho, as cabeças de gravação se superaqueciam e derretiam a fita magnética. O inventivo George Martin encontrou uma solução criativa: Usar secadores de cabelo soprando o ar frio para resfriá-las.
Na contracapa do LP original, há um texto de George Martin, que tenta explicar a dificuldade na época para deixar o som o mais limpo possível. Como sempre, a gente confere aqui, com absoluta exclusividade.

Há mais de doze anos atrás, os Beatles apresentaram-se pela primeira vez no hol­lywood bowl, em los angeles. Haviam cau­sado seu primeiro impacto na américa não muito antes mas eu já os tinha sob con­trato de gravação, para a EMI, há dois anos. Para falar francamente, eu não era favorável à gravação do concerto. Tinha certeza que não poderia ficar tão boa quanto as que fazíamos no estúdio, mas resolvemos tentar assim mesmo. Tecnica­mente, os resultados foram desapontadores; as condições de trabalho dos enge­nheiros foram extremamente difíceis. O caos — quase posso dizer pânico — que reinava nesses concertos era inacreditá­vel, a menos que você estivesse lá. Só foi possível fazer uma gravação em três ca­nais. Os Beatles não contavam com um sistema de “fold back” e não podiam ouvir o que cantavam. Além disso, os gritos in­cessantes de 17.000 pulmões jovens e saudá­veis tornariam inaudível até mesmo um avião a jato.
Um ano mais tarde — em 1965 — John, Paul, George e Ringo apresentaram-se no­vamente no hollywood bowl e, mais uma vez, a capitol gravou o espetáculo para a posteridade. Os tapes ficaram guardados por mais de uma década. Os rapazes e eu achávamos que não poderíam ser usados, porque se compunham de números que já haviam sido lançados em discos de estúdio. Falávamos sempre em fazer uma gravação ao vivo e, na verdade, foi essa a idéia ini­cial do malfadado álbum "let it be”, onde seria utilizado um material novo.
Por tudo isso, foi com certa prevenção que concordei em ouvir aqueles primeiros tapes. A pedido de Bhaskar Menon, presiden­te da capitol. O fato de serem as únicas gravações existentes dos Beatles, ao vivo — sem contar as ilegais, de qualidade infe­rior — não me impressionou muito. O que me impressionou foi a atmosfera eletrizante e a vibração espontânea que captaram.
Junto com meu engenheiro de gravação, Geoff Emerick, comecei a trabalhar para trazer o show de volta à vida. Foi um tra­balho de amor. Pois não sabíamos se ficaria suficientemente bom para ser ouvido pelo mundo — sem mencionar John, Paul, George e Ringo.
Transferimos a potência de trés canais para a moderna, multicanal, fizemos a remixagem, purificamos, nivelamos e, de um modo geral, aperfeiçoamos os tapes. Assim, trabalhando cuidadosamente as duas gra­vações. Produzimos essa que vocé vai ouvir agora. Obviamente, não houve alterações; todas as vozes e os instrumentos são in­terpretações originais — certas harmo­nias vocais, com três cantores num só canal, constituem prova suficiente disso. É um trecho da história que jamais se repetirá.
Aqueles que tiveram a felicidade de ou­vir um concerto dos Beatles, ao vivo — em Liverpool, Londres, New York, Washington, Los Angeles, Tóquio, Sidney, ou em qual­quer outro lugar — sabem o quanto suas interpretações eram surpreendentes, úni­cas. Não era apenas a voz dos beatles, era a expressão de todos os jovens do mundo.
Aos que ficam imaginando o porquê de todo este estardalhaço em torno deles, esse álbum deverá dar uma pequena idéia. Pode ser apenas um pobre substituto para a realidade daqueles dias mas, agora, é tudo o que resta.
No desiludido e sofisticado mundo de hoje, é difícil compreender a emoção pro­vocada pelo rompimento do conjunto. Uma vez, minha filha mais nova, lucy, agora com nove anos, falou-me a respeito deles. "você costumava gravá-los, não, papai? Eles eram tão bons como os Bay City Rollers?”. “Provavelmente, não”, respondi. Algum dia, ela mesma descobrirá.
Aqueles que clamam pela reconciliação dos Beatles não percebem que nunca mais poderia ser a mesma coisa. Os rapazes, à sua maneira, nos deram muito de suas vidas, como os Beatles e, agora, encontraram sua própria individualidade. Desejo-lhes boa sorte. Sinto-me muito orgulhoso por ter participado de sua história. Muito obrigado a john. Paul, george e ringo.
George Martin
E agora, a gente confere novamente o show de 1964 inteirinho. Difícil é suportar os cinco primeiros minutos com os apresentadores até os Beatles finalmente entrarem pra quebrar o cacete!

3 comentários:

Edu disse...

Será que a Lucy Martin - hoje com 48 anos já sabe a resposta? Nada contra os Rollers que adoro e estão logo aqui embaixo.

João Carlos disse...

Pois é. Comentei sobre isso lá embaixo.

Valdir Junior disse...

Estou devendo uma resenha ao Baú do "novo" Hollywood Bowl. A Vida tá corrida, mas até o final do ano mando.