“Sun Is Shining”, um rock com um leve tempero rural, foi gravada por“The Firemen”, dupla experimental composta por Paul McCartney e o produtor Youth – para seu 3º álbum Eletric Arguments, lançado em 24 de novembro de 2008 no site da dupla. Paul McCartney fala sobre a motivação para improvisar este tipo de trabalho com Youth: “Todas as manhãs eu acordava, tomava uma xícara de café e quando o Youth chegava nós conversávamos sobre um tema, só para entrar no clima... Então, a gente começava a sugerir quais instrumentos iríamos gravar naquele dia: violão, bateria, percussão, e logo já tínhamos uma base. Na hora de compor a letra, o exercício era ‘roubar’ duas ou três palavras, como fiz com uma antologia de Lawrence Ferlinghetti. De repente, tinha uma página cheia de versos”.
“Sun Is Shining” - com sua introdução que lembra o som da viola caipira brasileira - uma das mais empolgantes do álbum - chegou a ser tocada ao vivo, mas apenas em algumas passagens de som, incluindo a do Engenhão, no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 2011. Oportunidade perdida para uma canção que poderia funcionar muito bem nos shows. “Sun Is Shining” foi gravada no estúdio The Mill, com Paul em diversos instrumentos: Bateria, violão, guitarra, teclados, percussão e contrabaixo. A faixa “Equinox Instrumental”, incluída na edição de luxo de Electric Arguments, é um remix de “Sun Is Shining”. Fonte: "Masters".
Quando esta músicaapareceu aqui em maio de 2015, numa época em que ainda haviam comentários, uns torceram o nariz, disseram que não gostavam e que só com o tempo, começaram a gostar dela. Outros acharam tola, descartável e que não deveria ter aparecido em nenhuma edição de Flowers In The Dirt. Bobagem, essa faixa dance criada por Paul, é uma das melhores experimentais que já compôs! Durante o início das sessões de “Flowers In The Dirt”, os produtores Trevor Horn e Steve Lipson finalizaram duas faixas que certamente não ficariam de fora de Press To Play: "Rough Ride" e "Figure Of Eight". Ambas as composições seriam regravadas em 1979 para a inclusão em diversos compactos. Ainda assim, a dupla cuidaria de mais duas canções: "How Many People?" e “Où Est le Soleil?”, sendo que a dançante "Le Soleil" apareceria em diversos compactos e na versão em CD do álbum, como faixa exclusiva. “Où Est le Soleil?” foi composta em Campbelltown e é mais uma das faixas experimentais criadas em 1975, no Rude Studio, mas gravada propriamente apenas treze anos depois. A letra é a mais minimalista possível: "Ou Est Le Soleil? Dans le tete. Travaillez!" - Onde está o sol? Na cabeça. Trabalhe! "Le Soleil" foi gravada em janeiro de 1988 e mixada em dezembro de 1988. Paul McCartney: Vocal, guitarra, bongôs, sintetizador, bateria e programação; Chris Whitten: Tom-tons; Steve Lipson: Contrabaixo, teclados e programação; Hamish Stuart: Guitarra; Eddie Klein: Programação adicional. “Où Est le Soleil?” também contou com um filme promocional, com McCartney entrando, literalmente, em um jogo de videogame. Produzido por Debbie Mason em Londres, no Griphouse Studios, em 30 de julho de 1989, com direção de David Logde.
“Good Times Coming / Feel The Sun”é a segunda música do álbum "Press To Play"de 1986 , e é mais um exemplo de como McCartney pode reunir músicas inacabadas para criar um senso de unidade e uma faixa. Gerada como muitas outras músicas do catálogo solo e dosBeatles,“Good Times Coming/Feel the Sun”é formada pela junção de duas faixas totalmente distintas que se intercalam para fazer sentido. “Good Times” tem um saborreggaee“Feel the Sun”apresenta o tradicional clima da dupla Lennon/McCartney. McCartney fala sobre ela:“Tem algo de nostálgico sobre os verões passados... E para mim, esta música invoca três verões em especial: quando eu era um garoto e ia para Butlins (em Liverpool) vestindo calças curtas e sentia muita vergonha, porque queria mesmo calças compridas! Já o segundo verso é mais maduro, e o associo ao tempo dos Beatles: ‘That was a silly season, was it the best? / We didn’t need the reason, just a rest’ (‘Era um tempo meio maluco, será que era o melhor de todos? Nós não precisávamos de nenhum motivo, apenas descanso’). Essa é uma das minhas frases favoritas do disco! Então, chega o terceiro verso - meio sinistro: e fala sobre um incrível verão antes da guerra. E essa é a virada no final da música. Eddie Rayner e Carlos Alomar nas guitarras provam que não é preciso fazer solos longos para causar impacto”.Paul McCartney:violão, teclados, contrabaixo e percussão;Eric Stewart: violões e guitarra elétrica;Jerry Marotta: bateria;Carlos Alomar e Eddy Rayner: guitarras;Linda McCartney, Ruby JameseKate Robbins: harmonias.
TIME foi o 9º álbum de estúdio lançado pela superbanda Electric Light Orchestraem julho de 1981. É um álbum conceitual sobre um homem da década de 1980 que chega ao ano de 2095, onde se depara com a dicotomia entre o avanço tecnológico e o anseio pelo romance do passado. TIME liderou a parada de álbuns do Reino Unido por duas semanas, embora tenha atraído críticas mistas pelo uso pesado de sintetizadores e mudança de estilo do rock orquestral dos álbuns anteriores da ELO. Desde então, ganhou um culto de seguidores, especialmente entre retrofuturistas entusiastas. TIME é uma obra de synth-pop que combina elementos da música dos anos 1950, new wave , reggae , rockabilly, os Beatles, Phil Spector e the Shadows. TIME sinalizou um afastamento do som da banda, enfatizando a eletrônica sobre sua orquestra usual. Foi também o segundo álbum conceitual da banda, sendo o primeiro Eldorado em 1974. O videoclipe criado para seu single principal, "Hold On Tight", foi o mais caro já feito pela banda até então. Mais quatro singles seguiram o lançamento do álbum: "Twilight", "Ticket to the Moon" com "Here Is the News", "Rain Is Falling" e "The Way Life's Meant to Be". TIMEé considerado o primeiro álbum conceitual importante dedicado à viagem no tempo, bem como o álbum mais influente da ELO. "Twilight" se tornou popularmente conhecida por seu uso no curta de animação Daicon IV Opening Animation de 1983 . Em 2001, um relançamento do CD, incluiu três faixas adicionais que foram originalmente deixadas de fora do LP.
Under the Red Sky foi o 27º álbum de estúdio de Bob Dylan, lançado em setembro de 1990 pela Columbia Records. O álbum foi amplamente saudado como uma sequência estranha e decepcionante de Oh Mercy, de 1989, aclamado pela crítica . A maior parte das críticas foi dirigida ao som habilidoso do produtor pop Don Was, bem como a um punhado de faixas que parecem enraizadas em cantigas infantis. Under the Red Sky é uma raridade no catálogo de Dylan por incluir participações especiais de celebridades como George Harrison, Jimmie Vaughan, Slash, Elton John, David Crosby, Stevie Ray Vaughan e Bruce Hornsby. O álbum é dedicado a "Gabby Goo Goo", mais tarde explicado como um apelido para a filha de quatro anos de Dylan. Isso levou à suposição popular de que as canções mais infantis do álbum eram para seu entretenimento, algo que nunca foi confirmado ou negado por Dylan.
“Back in the Sunshine Again”, meio blues, meio soul, é mais
uma das músicas que Paul McCartney compôs depois da morte de Linda, em 1998. “Back
in the Sunshine Again”, começou a ser escrita em Tucson, cidade do Arizona, citada
pelos Beatles em 1969, quando apareceu em “Get Back”, e lá, Linda estudou no seu período universitário. Anos depois, o casal comprou um rancho próximo
a Tucson e foi onde Linda McCartney viveu seus últimos dias. Ela morreu em 17 de abril de 1998. Logo após sua morte, certa polêmica envolveu a localização real de seu passamento. Notícias circularam na imprensa que Linda teria morrido em Santa Bárbara, na Califórnia. Uma semana depois, o jornal Arizona Daily Star confirmaria sua cremação. Paul precisava ver a luz do sol novamente. “A ideia de fugir do inverno inglês até o sol do Arizona foi bastante atraente. Então, comecei a compor a música com ajuda de meu filho James, que contribuiu com o riff de guitarra e a ponte. Terminei ‘Back in the Sunshine Again’ na Califórnia, logo depois de começar a gravar o disco. É uma música ‘de volta ao sol’, sobre deixar os problemas para trás e caminhar em sentido à luz do sol, algo que se encaixa com a minha fase atual de vida”. Gravada em Los Angeles, em 28 de fevereiro de 2001 “Back in
the Sunshine Again” é a 12ª faixa do álbum “Driving Rain”, lançado em 12 novembro
de 2001. Paul McCartney: guitarra e baixo; Rusty Anderson: guitarra; Abe
Laboriel : bateria. Gabe Dixon: piano. James McCartney: guitarra.
"Red Sails in the Sunset" é uma canção popular de
1935, composta por Hugh Williams e Jimmy
Kennedy. “Sunset” foi inspirada nas "velas vermelhas" de Kitty de
Coleraine, um iate que Kennedy costumava ver na costa norte da Irlanda e por sua
cidade adotiva, Portstewart, um resort à beira-mar no condado de Londonderry. Ao longo dos anos, "Sunset" foi regravada por inúmeros grandes artistas, Bing Crosby, Guy Lombardo, Mantovani, Jack Jackson, Louis Armstrong, Nat King Cole, Paul Anka, The Platters e mais um tanto de gente. Em 1962, uma matadora versão de "Red Sails in the Sunset" entrou para o repertório dos Beatles, quando tocavam no Star-Club na Alemanha.
Este álbum, é resultado de uma série de gravações feitas em 4 de dezembro 1956 no precário estúdio da Sun Records (em Memphis) pelo próprio Sun Phillips, apenas como uma “recordação”, disse ele. Trata-se de uma grande "Jam Session" totalmente descompromissada com Elvis Presley, que na época já era o maior nome do show business da região, Johnny Cash - que segundo ele mesmo foi o primeiro a chegar ao estúdio, Jerry Lee Lewis, o mais novato, considerado "gênio do piano e vocal" mas ainda desconhecido fora de Memphis, e Carl Perkins que acabara de lançar o sucesso "Blue Suede Shoes"e estava à procura de material novo, acompanhado de sua banda (seus dois irmãos e seu baterista W.S. Holland) e o encontro ficou apelidado como "O Quarteto de Um Milhão de Dólares" pois, afinal, foram esses quatro (além de Phillips, claro) que fizeram a Sun Records se tornar o que se tornou. A maioria das faixas são curtas, e logo percebe-se a desorganização no estúdio, mas ainda assim a qualidade de som é boa, com vários comentários entre eles como Jerry Lee lembrando aos outros a letra de "Brown Eyed Handsome Man" (que também seria regravada 10.000 anos depois por Paul McCartney). A sessão termina com Elvis indo embora e como declarou Johnny Cash: "Nem mesmo Elvis quer acompanhar Jerry Lee".
"Your True Love" foi composta e lançada por Carl Perkins como single pela Sun Records, com "Matchbox" do outro lado em fevereiro de 1957. A gravação alcançou o # 13 na Billboard Country e Western Chart e # 67 na parada de singles pop da Billboard naquele ano. "Your True Love"foi gravada numa terça-feira, 4 de dezembro de 1956, quando Elvis Presley fez uma visita surpresa ao Sun Studios em Memphis, Tennessee. Johnny Cash e Jerry Lee Lewis também estavam lá e os quatro participaram de uma grande jam session improvisada naquele dia conhecida comoQuarteto de Um Milhão de Dólares. Carl Perkins também tocou "Your True Love" no show especial da HBO/Cinemax em 1985, “Blue Suede Shoes: A Rockabilly Session” com George Harrison, Dave Edmunds e membros dos Stray Cats. Além de dezenas de coletânias, "Your True Love" também apareceu na compilação de 1986 da Rhino Records, Carl Perkins: Original Sun Greatest Hits.
Em 1998, George Harrison prestou sua homenagem a Carl Perkins, recém falecido, apresentando uma versão improvisada de "Your True Love" no funeral de Perkins.
A alegre (e curta)“All Together Now” foi gravada durante o período do Magical Mystery Tour da banda , mas permaneceu inédita até ser incluída na trilha sonora do Yellow Submarine. Foi lançada como single em 1972 em países europeus como França e Alemanha, com "Hey Bulldog" do lado B. “All Together Now”foi escrita em maio de 1967, e Paulfoi seu principal compositor. A ideia era que fosse outra “Yellow Submarine”e John ficou satisfeito quando ouviu as torcidas de futebol da Inglaterra cantando a música. Um dos efeitos do psicodelismo era a renovação do interesse pela inocência da infância, e as rimas infantis começaram a afetar o trabalhopós-Pepper dos Beatles. Iona Opie, folclorista e editora doThe Oxford Dictionary of Nursery Rhymes, acredita que, quando as frases soam tão familiares, atraem mais a memória compartilhada:“Não posso distinguir nenhuma influência particular em 'All Together Now'. Existem tantas rimas de ABC e há diversas rimas como “one, two, three, four, Mary had a contage door...” que estão muito próximas. A música parece ter saído de um inconsciente universal”. Paulconfirma tê-la tirado das músicas para criança(“É uma cantiga de brincadeira”), mas diz que também estava brincando com o significado de “all together now”, que podia ser um convite para que todos cantassem em uníssono como um slogan para a unidade mundial. “All Together Now”foi gravada em 12 de maio de 1967 em Abbey Road e mixada no mesmo dia, mas não foi lançada até 13 de janeiro de 1969, quando apareceu no álbum da trilha sonora do filme.George Martinestava ausente desta sessão, deixando o engenheiro de gravação Geoff Emerickno comando da sala de controle.“All Together Now” levou menos de seis horas para ser gravada e foi gravada em nove tomadas, a última das quais foi selecionada para overdubs e foi a que saiu no disco. Desde o início, os Beatlesnão queriam participar do projeto do desenho animado “Yellow Submarine”, e também não gostavam da ideia de que seriam dublados. Quando viram as primeiras provas do filme quase pronto, acharam tão bom que decidiram que queriam aparecer de verdade.
Dion and the Belmonts foi um grupo formado em 1958 por Dion DiMucci, Fred Milano, Angelo D'Aleo e Carlo Mastangelo- todos nascidos noBronx, em Nova York.Eram vistos como um quarteto de Doo-Wop ítalo-americano tentando imitar os melhores grupos negros.
Depois de um primeiro single mal sucedido, o grupo assinou com a Laurie Records. O sucesso veio quando "I Wonder Why" entrou no Top 100 da Billboard. O grupo apareceu pela primeira vez no programa de TV Dick Clark Show e em seguida, vieram os hits: "No One Knows" e "Don’t Pity Me". Em março de 1959 Dion and the Belmonts gravaram o album Presenting Dion and the Belmonts com o hit"A Teenager in Love". Seu maior sucesso foi "Where or When" lançado em novembro de 1959, e conseguiu o 3º lugar do Top 100 da Billboard. Em 1960 Dion foi internado por dependência de heroína, e se afastou da banda. Outros singles lançados naquele ano foram menos prósperos. Como se não bastasse, havia disputas musicais e financeiras entre Dion e os Belmonts. No final de 1960, Dion iniciou sua carreira solo. Emplacou sucessos como "Runaround Sue" e "The Wanderer" que, no Brasil virou “O Lobo Mau” – sucesso de Roberto Carlos. Dion ainda apareceria em 1968 com "Abraham, Martin and John", regravada posteriormente por Marvin Gaye. Os Belmonts continuaram lançando discos, sem sucesso algum. A imagem do cantor Dion é uma das 60 figuras que aparecem na capa do clássico álbum Sgt. Pepper's, dos Beatles. Curiosamente, quando essa postagem foi publicada originalmente em 21 de janeiro de 2011, apenas seis figuras das sessenta, ainda estavam vivas: Bob Dylan, Larry Bell (artista plástico), Paul McCartney, Ringo Starr, Shirley Temple e Dion. Desses, apenas Shirley Temple morreu em fevereiro de 2014; Dylan está com 79; Bell com 81; McCartney 78; Ringo 80 e o velho Dioncom 81, e ainda na estrada.
Existem dois dias do ano que são muito representativos para mim e
que eu não esqueço de jeito nenhum: 9 de outubro e 8 de dezembro, o primeiro
porque foi o dia do nascimento de John Lennon, o segundo foi o dia de sua
morte. Há quarenta anos, John completava 40 anos e seu filho com Yoko Ono,
Sean, cinco. Estava feliz com o disco novo e a real possibilidade de voltar a
um mundo que já lhe pertenceu. Fico cá com meus cigarros, minhas latinhas e minhas pontas,
imaginando como a história poderia ser diferente se, naquela fatídica noite, os
tiros não tivessem sido disparados contra ele e sim contra Yoko Ono... ou mesmo se tivessem sido nele e tivesse
sobrevivido... ou ainda se não houvesse tiro algum e um tal de Chapman nunca
tivesse existido. Como John Lennon estaria hoje ao completar 80 anos? Estaria
louco? Estaria careta? Que tipo de som estaria criando? Os Beatles teriam se
reunido outras vezes? Mas é tolice pensar no que não existe e não é possível.
Por isso, nesses 80 anos de John Lennon, a gente aproveita para rever um texto
bem bacana - sobre os últimos meses de Lennon até o lançamento de Double
Fantasy - publicado aqui há 10 anos, quando estaria completando 70 anos. Valeu.
Happy Birthday Johnny! VIVA JOHN LENNON!
1980 marcou um importante fim e ainda mais importante começo para John Lennon. Ele estava cansado, doente e exausto de viver doente e exausto. Ele empregou seus últimos fiapos de determinação para começar o processo de desintoxicação, a frio dessa vez. Sem ajuda de metadona, de morfina, de rituais xamânicos, sem recaídas, sem voltar atrás. Aos 39 anos, seu corpo parecia o de um mendigo nova-iorquino desnutrido. Magro, com as costelas aparentes, barba e cabelos esparsos, o que lhe restava de musculatura estava flácido, desprovido de tônus sobre os ossos. Nos últimos cinco anos Lennon havia desenvolvido uma enorme aversão por si mesmo. Sabia que havia chegado ao fundo do poço, numa crise de identidade de cinco anos. O autoproclamado "marido e dono de casa" estava sofrendo o mal-estar do isolamento e do tédio, idênticos às reclamações das donas de casa suburbanas.
O que aconteceu a John foi a mesma coisa que aconteceu a Elvis Presley, Howard Hughes e muitos outros ricos reclusos e autoindulgentes: Lennon havia simplesmente se recusado a pagar o preço para permanecer vivo, o tributo feito em termos de envolvimento, responsabilidade e esforço, encontrando em Yoko Ono alguém disposto a lhe poupar o fardo da existência. John havia se afastado da realidade de seus próprios negócios. Yoko, ou "Mamãe", como ele a chamava, o aconselhou a não se ocupar mais de novas músicas. O édito estava em vigor havia mais de cinco anos agora, e os frutos de seu trabalho estavam apodrecendo. Não importa quão inquieto ele se tornara, ela continuava advertindo-o de que se tentasse cortejar as musas iria sofrer um fracasso humilhante, Esse longo silêncio estava prestes a acabar.
Quando John e Yoko voltaram de sua terceira viagem anual ao Japão, fizeram um pacto de se livrarem do vício da heroína. John, prometendo conseguir isso buscou técnicas de isolamento meditativo. Usou um tanque de privação sensorial: uma grande caixa negra no formato de um caixão cheia de uma solução salina morna. Flutuando por até meia hora, sem som e na escuridão total, experimentava uma sensação parecida com a de quando estava drogado, isolado em seu quarto por dias, imergiu em suas questões favoritas, relacionadas ao misticismo e às civilizações antigas. Como literatura inspiradora, releu os relatos de aventuras Kon Tiki, de Thor Heyerdal e do famoso navegador Sir Francis Chichester. Tocado por essas fábulas de autoconfiança e suficiência, encontrou a coragem para começar a confrontar seus demônios. Estava pronto para voltar à tona.
Yoko Ono evitou confrontar sua dependência de heroína e permaneceu uma junkie "funcional". Administrando a fortuna de 150 milhões de dólares do casal, havia investido no mercado imobiliário e comprado mansões na costa de Palm Beach, na Flórida, e em Long Island. John era dono de dois haras no rio Potomac e de uma fazenda em Catskills onde nunca poria os pés, além de urna fazenda de gado leiteiro no estado de Nova York avaliada em vários milhões de dólares. Sua propriedade favorita, escolhida por Yoko, era a casa em Cold Spring Harbor, em Nova York, chamada de Cannon Hill. Foi nessa mansão de 14 quartos, de frente para o mar, que ele se isolou no início da primavera. A proximidade com o mar sempre o inspirava a fantasiar sobre viagens e ele mandou seu assistente Fred Seaman comprar um barco a motor para que ele pudesse passear pela baía. John ganhou confiança e destreza na pequena embarcação. Encontrando nova satisfação em estar na água, comprou também um pequeno veleiro, o Isis. Ele e Fred aprenderam a navegá-lo, tomando aulas com Tyier Coneys, um marinheiro veterano. Começou a desejar "a coisa certa", dizendo a Fred como gostaria de velejar pelo Atlântico até o Tâmisa em Londres em vez de ir de limusine para o aeroporto de Heathrow. A ideia de velejar de volta para a Inglaterra se transformou em obsessão. Yoko disse que não fosse para a Inglaterra, mas para o sudeste, até as Bermudas. Em 4 de junho de 1980, John embarcou em um pequeno avião com seu instrutor de vela Tyler Coneys e voou para Newport Rhode Island para pegar seu veleiro fretado, a escuna de 13 metros Megan Jayne, capitaneada por Hank Beard. Outros dois primos de Tyler Coneys formavam o restante da tripulação. Seguindo para o mar aberto, sozinho no meio de estranhos, John estava assumindo o tipo de risco que passou toda a vida evitando. Ao mesmo tempo, realizava urna de suas fantasias infantis mais queridas: ir para o mar, como seu pai e seu avô. Com pouco conhecimento de navegação, John ocupou a cozinha do navio. A purificação emocional de uma nova aventura trabalhava sua alma e a adrenalina fresca corria em suas veias, provocando um novo e inesperado humor.
Inevitavelmente, em se tratando do Triângulo das Bermudas, o barco passou por uma forte tempestade, Um a um, os membros da tripulação ficaram enjoados e incapacitados. Na condição de único tripulante a não vomitar, o capitão ordenou que John ficasse no leme por quatro horas. Lutando para manter o curso, amarrado a uma corda enquanto o deque se inclinava e balançava, primeiro ficou aterrorizado com a visão do mar lançando seu peso e força extraordinários. A água que corria pelo convés era alarmante. John estava sozinho no leme, batendo de frente com ondas de seis metros de altura. Mas o barco manteve seu curso e, depois dos primeiros quinze minutos de puro terror, ele sentiu aumentar sua coragem. Era como estar no palco. Primeiro você entra em pânico e está prestes a vomitar, mas depois começa a fazer o que sabe fazer, esquece todos os medos e começa a ter prazer com a coisa toda. Enquanto o mar crescia diante dele, Lennon gritava de volta, cantava canções de marinheiros que ouvira na voz do pai em Liverpool. Havia vencido sua tempestade perfeita e chegado ao outro lado com a bazófia de um marinheiro para descansar no sol tropical de Hamilton Terrace, nas Bermudas. Fred Seaman estava emocionado ao se juntar a ele na ilha caribenha. Depois de mais de um ano vendo seu herói viver como um homem apanhado por urna doença devastadora, testemunhava o renascimento do verdadeiro, velho e bom John Lennon. Instruído a encontrar um refúgio criativo para John viver e trabalhar, Seaman logo descobriu Fairylands Undercliff: uma vila à beira-mar, isolada em um trecho estreito de terra. Durante o entardecer John fumava no pátio enquanto ouvia o álbum “Burnin” de Bob Marley. Depois de tocar Hallelujah Time sem parar durante meia hora, explicou a Fred que finalmente havia entendido o motivo de ter ficado tão obcecado com a canção por tanto tempo: era a frase sobre "não ter muito tempo para viver". Era exatamente como se sentia. Imediatamente começou a improvisar sobre a frase do álbum de Marley. Fred ligou o gravador enquanto John tocava sua versão pirata da música que iria se chamar "Living on Borrowed Time". Satisfeito, acendeu um cigarro de maconha e começou a descrever para Fred, de maneira arrebatada, sua ideia de um grande álbum, A gravação seria repleta dos sons sensuais, importados da Jamaica. Os planos de John acabaram na manhã seguinte, quando descreveu sua visão a Yoko Ono por telefone. Yoko Ono brigou para tê-lo de volta. Sem o conhecimento de John, havia decidido que sua obsessão em controlar os negócios familiares havia acabado e anunciou a seus bajuladores que voltaria a produzir arte e "eventos" musicais. Ela já tinha um monte de canções para gravar e estava determinada a transformá-las em um álbum de sucesso. A experiência havia lhe ensinado que um álbum solo seria o fim da estrada. Se produzisse seu próprio álbum, John faria a mesma coisa, E o dela ficaria nas prateleiras das lojas enquanto o dele evaporaria rapidamente. A solução foi o conceito de "the heart play": um diálogo entre amantes casados. Diante dessa ideia, John foi impelido a um apuro imediato: se rejeitasse o conceito, rejeitaria o mito de John e Yoko. Se adotasse a proposta, daria adeus à orientação de seus temas caribenhos. Depois de uma maratona de telefonemas e brigas iradas cara a cara, John foi persuadido a abandonar sua ideia de um álbum de reggae com uma pitada de tango em favor de um outro no qual duas pessoas, empregando idiomas musicais discordantes, cantavam alternadamente, falando de coisas diferentes. John continuou nas Bermudas por cinco meses compondo e trabalhando, incapaz de achar Yoko Ono por telefone por vários dias, escreveu a melhor peça do que viria a ser o álbum “Double Fantasy”: "I'm Losing You". Depois da temporada nos trópicos, ele voltou para Nova York planejando ir direto ao estúdio de gravações. Começou a organizar ensaios e a juntar uma banda. Instruiu Jack Douglas, seu produtor, a contratar novos músicos. Depois de passar anos com os mesmos companheiros de palco, que frequentemente tomavam liberdade com drogas e bebidas durante as sessões, John tentava evitar o caminho sinuoso e festivo que caracterizava seus rituais de gravações anteriores. Ele queria poder usar o chicote, tirando tudo o que quisesse dos músicos" sem ter que se preocupar em pisar no ego de "amigos". O objetivo de Lennon era fazer as coisas de forma simples e eficiente. Se ele tivesse que fazer mais do que cinco ou seis tentativas para cantar uma música, se enchia e seguia para a próxima. Esse estilo de gravação vigoroso e direto impressionou os músicos, muitos deles veteranos acostumados a passar dias sobre uma única faixa. Por mais genialidade e confiança que aparentasse, Lennon tinha graves receios após a semana inicial no estúdio. Achava que seu material e voz estavam enferrujados e abaixo do padrão. Nesse momento de vulnerabilidade, Yoko Ono revelou sua exigência por 50% das canções do novo disco. Enfurecido, Lennon explodiu: "Se é isso o que você quer, então não haverá um álbum". Passou os dois dias seguintes trancado em seu quarto, comunicando-se com a mulher apenas através de bilhetes passados debaixo da porta. Jack Douglas havia previsto o que estava por vir semanas antes de John voltar. Em um encontro pré-produção, Yoko Ono lhe dera um monte de fitas com as músicas "dela" para o álbum. "Não diga nada ao John", instruiu. Gravar Yoko Ono foi uma dor de cabeça para Douglas. Para que ele conseguisse uma nota decente em cada sílaba que ela cantava, obrigou Yoko Ono a fazer tomadas intermináveis. E nunca ficou plenamente satisfeito com o resultado.
Em duas semanas John gravou 22 faixas, material para dois álbuns. Ele voltou a assumir uma posição mais relaxada, permitindo a si mesmo tragos liberais de uma garrafa de uísque escondida. O ex-vegetariano também descobriu os prazeres dos whoppers do Burger’s King e dos pedaços oleosos da pizza de Nova York. Quando Yoko Ono finalmente ia para casa, deixando-o para trás, ele enviava alguém em busca de cocaína e todos ficavam felizes.
A maior parte da gravação e mixagem de Double Fantasy estava completa na festa de aniversário conjunta de Sean e John Lennon, celebrada em 13 de outubro para coincidir com o lançamento, no dia seguinte, do primeiro single do álbum: “Starting Over”. O single imediatamente foi parar no topo das 20 mais da Billboard e o lado B, "Kiss, Kiss, Kiss", de Yoko Ono, foi bem recebido nas danceterias gays e clubes noturnos da cidade. Double Fantasy era saudado corno um evento no mundo da música. A manipulação experiente de Yoko Ono da mídia rendeu montes de publicidade gratuita. As agências de notícias estavam estalando com o conteúdo de itens inseridos por seus agentes de publicidade. Sem poupar despesas, ela contratou um esquadrão de aviões para escrever uma mensagem de parabéns para John e Sean no céu sobre o Central Park.