
Para quem é um grande fã de Paul McCartney e acompanha sua carreira desde sempre, o início com os Beatles, seus primeiros álbuns solo, passando pelo wings e depois como solo novamente, contando colaborações com outros artistas e participações especiais em projetos paralelos, como The Fireman, não é surpresa que esse novo álbum seja, no mínimo, muito bom! The Boys of Dungeon, Lane lançado mundialmente em 29 de maio de 2026, é o vigésimo álbum dessa espetacular e fantástica trajetória. Co-produzido com Andrew Watt em sessões que remontam a 2021, foi anunciado em 26 de março de 2026 juntamente com o lançamento de seu primeiro single, "Days We Left Behind". O segundo single, "Home to Us", é um dueto com seu ex-companheiro dos Beatles, Ringo Starr.

Dungeon Lane é uma pequena alameda de Liverpool, no bairro de Speke, onde os jovens Paul McCarney e George Harrison viveram suas infâncias. The Boys of Dungeon Lane é quase inteiramente um álbum que reflete sobre essas lembranças. Mas se engana quem achar que é um disco melancólico e triste. A coisa passa bem longe disso.
Com um intervalo de seis anos (o maior de sua carreira) desde McCartney III, Paul continua mostrando porque é o maior artista vivo do planeta. E isso ele demonstra com maestria nas 14 faixas de Dungeon Lane, com pouquíssimas baladas e muitos rocks, com guitarras afiadíssimas, cortantes e vocais ainda surpreendentes. E sim, Paul ainda é capaz de dar aqueles gritos que ajudaram a imortalizar o som dos Beatles.

Depois de todos esses anos, McCartney ainda nos surpreende com sua prolífica produção musical, seu talento inegável para criar melodias memoráveis e seu impressionante jogo de palavras, sem mencionar que ele toca mais de 20 instrumentos diferentes nessas últimas gravações. As interessantes escolhas musicais e líricas que ele faz neste novo álbum conferem a cada faixa algo especial, com nuances notáveis de seus anos com os Beatles, Wings e carreira solo. É um álbum conceitual com temas como tempo, memórias, saudade nostálgica e (é claro) amor eterno. Talvez nunca tenhamos uma autobiografia de McCartney, mas Paul nos presenteou com este tomo de vinhetas musicais autobiográficas, baseadas em diversas lembranças de sua juventude na Liverpool do pós-guerra, com referências e acenos a lugares pessoais, familiares e seus futuros (e famosos) companheiros de banda. Ouvir esta coleção de canções é como sentar com um parente idoso e querido, folheando um antigo álbum de fotos, enquanto ele conta histórias e memórias evocadas pelas imagens dos dias que ficaram para trás.

Desde os intrigantes, acústicos e complexos acordes da faixa de abertura, "As You Lie There", você sabe que está prestes a ouvir algo especial. Com a introdução falada, alguém poderia pensar que seria mais uma "tola canção de amor", mas não é o caso, já que a música repentinamente transita para um rock pesado com McCartney oferecendo um vocal de apoio estridente e estelar, pelo qual era conhecido décadas atrás. A música já emenda com a vibrante "Lost Horizon", um delicioso rock com McCartney compartilhando uma memória sensorial a partir do som de um trem distante. O primeiro single, “Days We Left Behind”, é uma balada acústica sublimemente cantada com uma suave nostalgia e fragilidade, sem bateria ou percussão. Talvez, frágil para o primeiro sinngle. “Ripples in a Pond” é outra canção cativante e inteligentemente escrita, muito animada, com os vocais de McCartney em destaque e uma produção pop vibrante, antes de mergulhar em uma ponte inventiva e espacial. Escrita para Nancy Shevell, McCartney mudou a frase da terceira pessoa ("ela") para a segunda pessoa ("você"), para personalizá-la mais para sua esposa. Durante a reprodução da música, McCartney chegou a olhar diretamente para ela, com quem é casado há 15 anos, enquanto dublava trechos da letra, incluindo "Eu te amo mais do que nunca". McCartney gravou a música na Inglaterra e depois a enviou para Watt para torná-la mais animada e dançante. enquanto “Mountain Top”, uma canção psicodélica melódica com acordes iniciais é enriquecida pela instrumentação da era Sgt. Pepper dos Beatles, com seus vocais de órgão Lesley típicos de meados dos anos 60, toques agudos de piano staccato e letra alucinante (“Cogumelos mágicos parecem falar e dizer olá”). Faltando meio minuto para o fim, a faixa explode espontaneamente e se transforma em uma jam poderosa no melhor estilo de filme de James Bond com guitarras e bateria pulsantes. “Down South” vem das histórias que Paul costumava contar sobre como ele, John Lennon e George Harrison pegavam carona, às vezes para aprender novos acordes de guitarra, o que era “uma boa maneira de se conhecerem” antes de se tornarem a famosa banda de rock que tocava “Twist and Shout”. "We Two" é uma típica serenata de McCartney para alguém querido, provavelmente Lennon - "Always, always, my friend".

“Come Inside” é a 8ª faixa do álbum. A letra reflete um tom introspectivo, porém convidativo, incentivando o ouvinte a abrir a mente e o coração."É basicamente um rock, não há muito mais a dizer além de que é fantástica", disse Paul ao Mirror. "Never Know" evoca a era "Magical Mystery Tour" de McCartney, com seus sons de teclado mellotron, vocais de apoio a cappella e flauta doce (usada aqui com a mesma eloquência que em "Fool on the Hill". "Home To Us" é uma faixa excepcional por várias razões. Principalmente, temos a metade sobrevivente dos Beatles em um dueto pela primeira vez, com Ringo Starr não apenas contribuindo com sua inconfundível bateria, mas também dividindo os vocais com Paul nesta música alegre, vibrante e enérgica. “Life Can Be Hard” começa com um piano divertido, que dá lugar a uma animada canção orquestral com um toque de swing de Nova Orleans, como McCartney explorou em seu álbum Venus and Mars. "First Star of the Night" é, com certeza, uma das melhores do novo álbum. A música foi escrita na Costa Rica durante um dia de folga da turnê Got Back, quando uma forte chuva obrigou a uma mudança de planos. "A primeira estrela da noite é sempre especial quando a vemos. Ela sempre me dá um pouco de esperança. Emoções positivas que morreram parecem voltar, brilhando forte como a primeira estrela da noite". Em “Salesman Saint”, McCartney fala sobre quando seus pais eram mais jovens, o quanto tinham que trabalhar e das expectativas pelo fim da guerra. "They couldn't take any more, but they had to carry on" (eles não aguentavam mais, mas tinham que seguir em frente". É como uma paisagem marítima de Liverpool, com sua batida de bateria valsada e letras narrativas. A seção de metais com sonoridade tradicional transporta os ouvintes para o passado, oferecendo um vislumbre da atmosfera e dos sons da época . A faixa final do álbum, “Momma Gets By”, é uma ode melancólica e triste ao piano, mas não menos linda, é para às mães comuns que tiveram que se virar durante esses tempos de luta e conflito que definiram a era. "A mãe é a forte e o pai é meio perdulário… Na verdade, é escrito do ponto de vista do filho deles, mas não tem nada a ver com meus pais, honestamente. Às vezes, ao compor uma música, você não se baseia em memórias ou em nada em particular, apenas cria uma história. Como "Lady Madonna", que não é sobre pessoas que eu conheço especificamente".

O que The Boys of Dungeon Lane prova é que, Paul McCartney, aos 84 anos, ainda está cheio de surpresas e não perdeu seu talento para produzir um álbum notável, repleto de canções cativantes e habilmente elaboradas. Assim como Penny Lane, Strawberry Field e Abbey Road, Dungeon Lane certamente se tornará mais um local dos Beatles imortalizado em canções para os fãs visitarem, e The Boys of Dungeon Lane será mais uma jornada musical à qual os fãs poderão retornar repetidamente. Em “Ripples in a Pond”, McCartney afirma: “Devo ser abençoado”. Ele de fato é, e nós também. E Paul parece feliz feliz com o novo álbum . E se ele está feliz, devemos ficar também e agradecer por estarmos vivendo na mesma época. E Paul McCartney continua sendo um tesouro nacional – e global – e um dos maiores compositores, letristas e artistas musicais de nossa época.
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