domingo, 1 de abril de 2018

JOHN E PAUL - A ÚLTIMA FOTO JUNTOS - 1974


Pareceria coisa do dia da mentira, mas foi real. Entre os últimos dias de março e início de abril de 1974, em Santa Monica, na Califórnia, John Lennon e Paul McCartney estiveram juntos algumas vezes durante o que ficou conhecido como “fim-de-semana-perdido". Fizeram inclusive, uma jam session. Na tarde do dia 1º de abril, uma série de polaroids foi tirada pelo assistente pessoal de Keith Moon, Peter “Dougal” Butler. Três dessas fotos de John e Paul so­breviveram — John usando uma boina preta, camisa azul-clara e jeans mais escuros, Paul ostentando um sutil corte mullet e o bigode da moda, cerrado à la Zapata, camisa estampada marrom e calça-pescador branca. A dupla foi surpreendida pela câmera, relaxando e batendo papo de forma casual. Nenhum dos dois, claro, sabia que essas fotos despreocupadas seriam as últimas tiradas de Lennon e McCartney juntos.Resultado de imagem para JOHN LENNON AND PAUL MCCARTNEY - 1974http://www.feelnumb.com/wp-content/uploads/2009/07/http://beatlephotoblog.com/photos/2013/05/
Aqui, a gente confere um trecho do livro "Paul McCartney - Uma Vida", de Peter Ames Carlin, sobre esse encontro.
A possibilidade de um encontro dos Beatles sempre estivera presente e, por volta de 1974, pareceu estar perto de se tomar realidade. A co­laboração deles quase completa em Ringo foi bastante tentadora nesse sentido, e até mesmo John demonstrou desejar que aquilo aconteces­se então. “É isso aí, nós três estávamos lá”, declarou ele ao repórter da revista New Musical Express, Chris Charlesworth, ao comentar a sessão em que tocara com George e Ringo, no final de 1973. “Provavelmente, Paul também teria se juntado se estivesse na cidade, mas não estava.” Embora Paul continuasse negando os rumores de que o grupo voltaria a se reunir, tanto quanto os outros Beatles, ele também não deixava de meditar sobre aquilo, e mesmo de ansiar publicamente pela possibili­dade de realmente fazê-lo. Talvez, com seu jeito quieto, ele estivesse trabalhando para que isso acontecesse. Pelo menos, foi a impressão que ele deu na noite em que apareceu, de surpresa, numa das sessões de gravação de John, em Los Angeles. Na época, John estava separado de Yoko e vivia com a antiga secre­tária dos Lennon, May Pang, e permitia-se algo como uma adolescência renovada. Mas também estava trabalhando, tentando conciliar dois de seus novos projetos de gravação com um álbum que estava produzindo para Harry Nilsson. Ele comandava as sessões do disco de Nilsson, em março de 1974, quando Paul começou a circular pela cidade. Eles se viram pela primeira vez na cerimônia de entrega de prêmios da Acade­mia, no dia 9 de março, e se encontraram nos bastidores para conver­sar um pouco. O encontro público inspirou ainda mais rumores sobre a reunião dos Beatles, e eles teriam sido ainda mais febris se algum observador tivesse visto Paul e Linda se esgueirando pelos Burbank Studios, após a meia-noite do dia 28 de março, indo direto ao recinto em que John estava trabalhando com Nilsson, Ringo e uma banda rota­tiva de amigos famosos. "Não tínhamos ideia de que ele viria”, diz May Pang. "Subitamente, nos viramos e nos deparamos com Paul.” John sorriu quando se abraçaram. "Como você descobriu que es­távamos aqui?” Paul deu de ombros e olhou em volta do estúdio. Mal Evans, o velho assistente dos Beatles, estava lá, de pé com os ou­tros músicos que rodopiavam por ali, conversavam e fumavam juntos, e agora assistia a essa nova cena sendo desenrolada diante de seus olhos. Mas Paul tinha perdido a sessão de gravação e não conseguiu esconder a decepção no olhar. “Então, por hoje já terminou?”."Bem, sim". Mas John costumava ficar até mais tarde na maioria das noites e, no fim, acabava fazendo improvisações com quem quer que estivesse por perto. Paul se aproximou da batería — a batería de Ringo — subiu no banco, apanhou duas baquetas e se postou cheio de es­perança. John deu de ombros. “Ah, ok”, afirmou, olhando em volta em busca de sua guitarra. “Vamos fazer um pequeno improviso.” Linda ficou no órgão; um outro músico da sessão ao lado pegou o baixo. Stevie Wonder, que estava gravando no salão de baixo, entrou e se sentou no piano elétrico. Enquanto os técnicos corriam para ar­ranjar os microfones, John improvisou uma canção de jazz, ao mes­mo tempo que Paul e Stevie tocaram juntos. Ws so wonderful to beeee, waiting for my green card with yooouuu [É maravilhoso estaaaar, esperando pelo meu ‘green card' com vocêêêê], John murmurou, mencionando sua contínua luta para ficar nos Estados Unidos. Mas aquilo não resultou em nada, então Stevie conduziu o grupo numa progressão à moda gospel até uma versão lenta, ftink, de "Lucille”, com Paul gritando em total estilo Cavern e John fazendo a harmonia de fundo. Aquilo terminou em dois versos e nada mais surgiu ("Alguém me dê um mi", John falou, tentando afinar seu instrumento, “ou uma fileira”). “Stand by me” veio a seguir, gerando certa confusão técnica. (Liga a porra do microfone do vocal!", John comandou. “McCartney está fazendo harmonia na bateria Eles continuaram tocando, e então estava acon­tecendo novamente. De forma breve, e um tanto hesitante, mas ainda assim; John na dianteira, com a voz de Paul fluindo com facilidade na alta harmonia, como se o tempo não tivesse passado, como se eles não tivessem ficado quatro anos atravessando com pesar as próprias animosidades e raivas. “Era como se fosse ontem”, diz Pang. “Eles não pulavam uma única batida, faziam tudo certinho. O improviso continuou, assim como a bebedeira e a inalação de cocaína. A música entrava e saía de foco, e John ia ficando irascível, tomando-se cada vez mais neurastênico quando seu microfone per­dia o volume. Mesmo assim. Pang recorda uma versão especialmente aguda da antiga canção “Midnight Special”, com novo ritmo. Quando acabou, já em plena madrugada. John convidou seu ex-parceiro pa­ra visitar sua casa em Malibu, na manhã seguinte. Paul concordou animadamente e disse que sim, claro, estaria lá. E feliz, com certeza. Ele apareceu com Linda e as crianças perto do meio-dia, e encontrou Ringo, Keith Moon, do The Who, e alguns outros amigos sentados em volta da piscina.Resultado de imagem para JOHN LENNON AND PAUL MCCARTNEY - 1974
Sem ter nada para fazer, Paul se sentou ao piano e dedilhou algumas velhas melodias dos Beatles, enquanto os outros riram e cantaram juntos. Quando John finalmente despertou, Paul chegou para ele e sussurrou que tinha uma mensagem de Yoko. Algumas semanas antes, ela tinha estado em Londres e telefonara para Paul, do nada. Será que ela podia fazer uma visita? Bem, claro que sim. Ele estaria mesmo na casa de Cavendish, naquela semana, então ficaria mais fácil. Ela chegou sorrindo, mais calada do que o normal. Sem dúvida, Paul e Linda ouviram falar que ela e John haviam se sepa­rado — ela o tinha mandado embora para Los Angeles, para viver com May Pang. “Ela estava sendo muito gentil e confiava na gente, mas era muito firme sobre aquilo”, Paul contou ao escritor Chris Salewicz, dez anos depois. Embora não estivesse contente com o comportamento de John, ela queria que ele soubesse que estava aberta a uma reconcilia­ção. “Mas ele vai ter de se corrigir”, afirmou ela. “Eu disse: ‘Bem, você ainda o ama?”, Paul perguntou. “Então eu falei: Bem, você acha que seria intromissão de minha parte se eu dissesse isso a ele, que você o ama e existe um caminho para voltar?”. Ela disse que não se importaria.” Paul iria a Los Angeles dentro de algumas semanas e, assim, quan­do ficou a sós com John no pátio de sua casa alugada, achou que seria o momento adequado para entregar-lhe a mensagem. “Fui com ele para o quarto dos fundos e disse: ‘Essa sua garota ainda o ama. (...) Você tem de se mexer, cara. Precisa voltar a Nova York, alugar um apartamento sozinho e mandar flores para ela todos os dias, vai ter de batalhar feito um condenado!”. John balançou a cabeça, e foi isso. “É como uma canção dos Beatles!”, Paul declarou a Salewicz, sem perceber que a história que estava contando era praticamente a dra­matização de “She Loves You”, sem o yeah, yeah, yeah. A tarde prosseguiu. Paul se sentou ao piano e começou a tocar al­guns sucessos, depois voltou a mais canções dos Beatles. Ringo se sen­tou ao lado dele no banco e cantou junto, dando gargalhadas. John veio até a sala e observou por alguns minutos, não demonstrando estar contente, e depois voltou para o pátio. May e Linda levaram as crianças para andar na praia, e em seguida foram mergulhar. Quando a luz co­meçou a fenecer, os McCartney pegaram as crianças e se despediram. “Vamos nos encontrar outra vez”, disse Paul. John concordou com a cabeça. "Vamos, sim!” Pouco tempo depois, Pang ouviu John conversando com Nilsson sobre o futuro. “Não seria legal juntar os companheiros novamente?”, ele disse. Nilsson aprovou com um gesto, sabendo exatamente quais eram os companheiros de que John estava falando. “Eu adoraria entrar nessa com vocês”. “Oh, yeah”, John afirmou de modo ainda mais entusiástico. “Nós podíamos fazer um show no outono”. Em vez disso, John e Pang se mudaram para Nova York e aluga­ram um apartamento no Upper East Side, do outro lado do Central Park e do apartamento que John dividira com Yoko no edifício Dakota. em Central Park West. John começou a enviar flores para Yoko, e ela foi assistir à apresentação dele com Elton John, no Madtson Square Garden. Pouco depois, John voltou a viver com a mulher e aquele vin­culo revigorado tornou a ser o centro de suas preocupações.

Um comentário:

Dani disse...

Sinto um leve aperto no coração ao ver essa foto. Na verdade, tenho sentimentos mistos, alegria e tristeza ao mesmo tempo.