sábado, 12 de setembro de 2015

GEORGE HARRISON - A PAIXÃO DO BEATLE PELA FÓRMULA 1

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George e Emmerson Fittipaldi
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George pilotando uma Lotus 18 de 1961 no circuito de Donington, em 1979http://www.formula1.com.br/wp-content/uploads/2013/02/
George e Ayrton Senna do Brasil
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George e James Hunt
Em 1978, a Fórmula 1 perdeu dois pilotos suecos em um espaço de 40 dias de maneiras trágicas: Ronnie Peterson após um grave acidente em Monza há exatos 37 anos e Gunnar Nilsson depois de uma luta contra câncer nos testículos.
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Um Beatle, porém, tentou resgatar a autoestima dos competidores lançando uma canção sobre o circo da F-1. Fã de automobilismo, George Harrison se tornou amigo de alguns dos lendários corredores como os campeões Jackie Stewart e Emerson Fittipaldi. O brasileiro, por sinal, também recebeu um belo tributo do compositor de "Something", "My Sweet Lord" e "While My Guitar Gently Weeps" em uma versão-surpresa para "Here Comes The Sun" após seu acidente em 1996 na Indy.Ronnie Peterson morreu após acidente no GP da Itália em 1978
Ronnie Peterson morreu em 11 de setembro de 1978 em decorrência de um múltiplo acidente sofrido na largada do GP da Itália do dia anterior. Sua Lotus bateu a 200 quilômetros por hora no muro de proteção e pegou fogo; James Hunt, Clay Regazzoni e Patrick Depailler deixaram seus carros para tirá-lo das chamas.
John Watson, Emerson Fittipaldi, James Hunt, Niki Lauda, Jody Schekter e Åke Strandberg carregam o caixão de Ronnie Peterson. Atrás, Gunnar Nilsson
Durante a madrugada, porém, o então vice-líder do Mundial de Pilotos começou a ter complicações nos pulmões por causa de embolia gordurosa em decorrência das fraturas nas pernas. Seu caso foi só piorando, os rins pararam de funcionar, e a morte de Ronnie foi anunciada às 9h55 de segunda-feira. Foi-se um dos mais carismáticos personagens da F-1, um choque para todos - grande parte do grid foi à cidade sueca de Örebro acompanhar seu funeral. Mas aquele 1978 marcaria ainda mais uma despedida trágica.
Gunnar Nilsson correu por duas temporadas na F-1
Quase 40 dias depois, Gunnar Nilson sucumbiu à batalha contra um câncer nos testículos. Aos 29 anos, o ex-campeão da Fórmula 3 britânica morreu em 20 de outubro depois de somente duas temporadas na principal categoria do automobilismo (1976 e 1977). Já bastante debilitado, ele esteve presente ao funeral de Ronnie Peterson em uma de suas raras aparições após a descoberta do câncer em dezembro de 1977.As perdas desestabilizaram os pilotos da F-1. George Harrison, então, resolveu colocar a mão na massa com a intenção de levantar o moral de todos e ainda angariar fundos à Gunnar Nilsson Cancer Fund, criada após a morte do piloto sueco: lançou em 30 de julho de 1979 o single "Faster", o terceiro do álbum de mesmo nome do lendário guitarrista. A música, inspirada em seus amigos Jackie Stewart e Nicki Lauda, foi dedicada a "todo o circo da Fórmula 1" e também em memória de Ronnie Peterson.
Single Faster, de George Harrison, lançado em 1979
"Eu me diverti com muitos pilotos da F-1 e suas pessoas - e eles me permitiram ver coisas de um ângulo muito diferente da que estava acostumado normalmente com o mundo da música", chegou a dizer George Harrison. Na capa britânica do single, fotos de Emerson Fittipaldi, Lauda, Stewart, Jody Scheckter, Graham Hill, Juan Manuel Fangio, Stirling Moss, Jim Clark e Jochen Rindt - os dois últimos, campeões da F-1, que também morreram competindo. Jackie Stewart, por sinal, é a "estrela" do clipe oficial da música, na qual George Harrison toca e canta no banco de trás de um carro com o escocês de chofer."Ele amava Fórmula 1, o show, a loucura. http://www.auto123.com/ArtImages/128333/
Ele gostava dos pilotos", lembra Damon Hill, filho de Graham e campeão da F-1 em 1996. "Nós tínhamos a corrida de Fórmula 1 em Liverpool, e ele costumava ir ao circuito de Aintree quando era jovem para assistir ao GP. É muito gratificante pensar que uma pessoa tão bondosa e gentil como George gostava de Fórmula 1. Ele foi um ótimo homem, nós tivemos muita sorte de ele ser um fã de F-1".Após o fim oficial dos Beatles, em 1970, George Harrison se tornou figura frequente em várias corridas da F-1. E quase sempre ao lado do tricampeão Jackie Stewart."Não posso dizer que tenha sido um dos melhores amigos de George, porque muita gente passou mais tempo com ele do que eu. Mas me sentia tão próximo a ele que ainda me afeta hoje em dia (sua ausência)", afirmou o escocês em entrevista ao documentário "Living In The Material World", de Martin Scorcese. "Posso dar uma dezena de nomes, e garanto que diriam o mesmo que estou contando. Não era uma habilidade. Era uma aura que nos protegia."
A pancada foi tão forte que Peterson, de 34 anos, sofreu sete fraturas em uma perna e três na outra - ele ficou o tempo inteiro consciente, não aparentando ter risco de morrer. O caso mais preocupante era o de Vittorio Brambilla, que foi atingido na cabeça por uma asa que se desprendeu de outro carro.Outro que ficou muito próximo do guitarrista foi Emerson Fittipaldi. "Uma aproximação maior ainda pelo lado espiritural", cita Reginaldo Leme, da TV Globo."Foi uma amizade de muitos anos, era uma pessoa muito querida. Nós tivemos muitos momentos de muita alegria juntos, foi muito bacana. Um amigo da família, minha família é amiga da família dele, quando vamos à Inglaterra quase sempre encontramos a Olivia (viúva) e o Dhani (filho)", falou o bicampeão à reportagem. "Eu acho que foi o mais apaixonado pelo automobilismo, conhecia todo mundo, amigo de todos na F-1".No final de 1978, por exemplo, Harrison passou férias no Guarujá, litoral de São Paulo, junto a Fittipaldi. O jornalista argentino César Mascetti - devidamente trajado apenas de sunga - aproveitou a oportunidade para entrevistá-lo tendo como tradutor o piloto brasileiro. O repórter perguntou ao ex-Beatle se a Fórmula 1 o inspirava a escrever canções, e o guitarrista revelou que lançaria "Faster" no ano seguinte.
Emerson Fittipaldi deixou a F-1 ao final da temporada 1980, mas voltou a fazer história em outra categoria, a CART. Criada havia poucos anos, a também chamada Indy recrutou o brasileiro em 1984, e lá o "Rato" conquistou um título além de ganhar por duas vezes a tradicional 500 Milhas de Indianápolis. Em 1996, já perto dos 40 anos, Fittipaldi sofreu o mais grave acidente de sua carreira durante o GP de Michigan em 28 de julho em disputa de posição com Greg Moore. Ele bateu sua Hogan Penske a 320 km/h no muro da curva 1.
"Sentado impotente no cockpit do carro, perdi a noção das cores. Via tudo em preto e branco. Meus braços, muito compridos, pareciam de borracha. Minhas mãos, a uns dois metros de distância, batiam descontroladamente no volante, que parecia pequeno e distante. Constatei horrorizado que não conseguia controlá-las. Logo as labaredas me engoliram, acompanhadas por uma fumaça espessa e branca, e tive certeza absoluta de que ia morrer. As chamas cresceram e eu sentia uma horrível dificuldade de respirar", contou Emmo em sua biografia "Emerson Fittipaldi: uma vida em alta velocidade". "Na hora vi a imagem dos meus cinco filhos e desmaiei. Achei que tinha morrido, até quando eu escutei os carros andando e percebi que estava vivo", disse. "Sabia que estava com hemorragia interna. Estava sem respirar, esse foi o grande sofrimento. Eu estava sufocado", relembrou. O maior medo, porém, era de ficar paraplégico, algo que logo foi descartado pelos médicos que o atenderam. Sua recuperação demorou poucos meses, e sem qualquer sequela. Em 31 de outubro daquele ano, Fittipaldi participou do programa "Gente que brilha", no SBT, com o lendário apresentador Blota Junior, e recebeu uma homenagem de George Harrison, diretamente de Londres. O "Beatle quieto" tocou uma versão de "Here Comes The Sun" e disse que esperava reencontrá-lo logo em uma praia para tomar "20 caipirinhas cada um".
George Harrison morreu em 2001, aos 58 anos, vítima de um câncer de pulmão. Em entrevista à BBC após o acontecimento, Emerson revelou tê-lo visitado meses antes: "Fiquei três dias em Lugarno, na Suíça, com George e sua esposa Olívia, e conversamos muito. Quando eu cheguei senti que ele estava bastante abatido. Aos poucos foi se animando e no último dia ele não queria deixar eu ir embora". Apesar de abatido pela doença, Fittipaldi disse que "ele sempre manteve o espírito de guerreiro, mostrando um amor impressionante pela vida. Sua esposa Olívia também sempre foi uma grande guerreira ao lado de George". "Hoje é um dia bastante triste para mim, mas tenho certeza que George morreu acreditando na vida eterna e que um dia nós estaremos novamente juntos", disse. Jackie Stewart, o amigo que acompanhou George Harrison pelo mundo por causa da Fórmula 1, definiu ao diretor Martin Scorcese: "Perdi muitos pilotos. Muitos amigos morreram. Estava com eles quando morreram. Fiquei exposto a muitas experiências emotivas, e ainda assim não creio que haja nada que tenha me deixado um pesar tão duradouro quanto a perda de George".

4 comentários:

Fábio Simão disse...

Que post emocionante. Gostei muito.

Valdir Junior disse...

Apesar de não gostar nem um pouco de F-1, gostei do post !!

João Carlos disse...

Muito bom. Mais que completo. Foi uma surpresa, na época, saber que George era fã da velocidade.

Valquiria Ribeiro disse...

Muito bom este post. Ficamos sabendo de coisas que não são noticiadas.