Já dando início às comemorações dos 50 anos do lançamento do álbum LET IT BE em 8 de maio.
A postagem sobre uma edição especial da Super Interessante - DOSSIÊ THE BEATLES - MÚSICA POR MÚSICA, apareceu aqui há pouco mais de um ano no dia 5 de abril de 2019. Esta publicação, pode não ser assim nenhuma Brastemp, mas alguns textos, de algumas músicas ficaram muito bons. Esta semana, nesses tempos de peste, o site da revista publicou o texto sobre a música “Let It Be” assinado por Alexandre Carvalho e a gente aproveita e pega uma carona.
Neste momento tão à flor da pele para todo mundo, me lembrei
deste texto que escrevi para o dossiê SUPER “Beatles – Música por Música” – que
você pode ler completo aqui.
O texto fala de como a canção “Let It Be” nasceu quase como uma experiência
religiosa, quando Paul McCartney lidava com um dos piores momentos de sua vida,
o fim iminente dos Beatles. Uma música que parece dizer: “calma, vai passar”. O
texto vai assim:
Embora já usasse a droga desde meados de 1968, o vício de Lennon em heroína só
chegou a seu período mais extremo nas sessões do projeto Get Back. E o efeito
prático da dependência química foi que, durante a produção do álbum Let It
Be, John se portava como uma sombra – sua criatividade estava desligada. Repare: não há nenhuma grande canção (nova) de Lennon no disco. “Across the
Universe”, seu grande momento, tinha sido gravada um ano antes. “One After 909”
era o resgate de uma música feita nos anos 1950. E todo o resto da sua
contribuição foi de canções mal-acabadas e algumas vinhetas… A exceção mais
vigorosa foi a parte “Everybody Had a Hard Year”, dentro da música “I’ve Got a
Feeling”… de Paul. Esse estado zumbi do antigo líder jogava toda a responsabilidade nos ombros de
McCartney. Ele já tinha sido o mentor de Sgt. Pepper’s, idealizou Magical
Mystery Tour, foi o único engajado para que o projeto Get Back vingasse… Até na
lendária apresentação no topo do prédio, Paul só faltou arrastar os outros três
para o palco improvisado. O desgaste de ser sempre o homem do “vamos lá, pessoal” – como um chefe de quem
as pessoas falam mal pelas costas – somou-se a novas pressões. Desde que
Epstein morreu, os Beatles tiveram de lidar com contadores e advogados.
Relações marcadas por conflitos de interesse, que foram acumulando uma montanha
de ressentimento entre os quatro. Até que, à beira de um colapso nervoso, Paul uma noite sonhou com a mãe, Mary –
que morrera de câncer quando ele tinha 14 anos. Nesse sonho, ela acalmava o
filho: “não se preocupe, tudo vai dar certo… deixe estar”. Esse devaneio
antidepressivo foi a inspiração para que McCartney escrevesse a melhor de todas
as letras de autoajuda – e com uma melodia inesquecível ao piano. Como sucede a muitos desesperados, Paul se aproxima da religião em “Let It Be”,
com expressões que caberiam na boca de um pastor: “e quando a noite está cheia
de nuvens, há ainda uma luz que brilha sobre mim”. Sua mãe parece assumir a
figura de uma santa, especialmente Nossa Senhora, coincidindo até no nome,
Maria: “na minha hora de solidão, ela aparece de pé bem diante de mim, dizendo
palavras sábias”. O nome dessa experiência mística, entre os religiosos, é epifania. Adotando
aquelas sílabas tranquilizantes como um mantra, Paul McCartney escreveu um dos
sucessos mais grandiosos de sua carreira – ao mesmo tempo em que abria os olhos
para além da ilusão juvenil da amizade eterna. A mensagem embutida em “deixe
estar” talvez tenha preparado o mais agregador dos Beatles para a realidade que
ele não parecia disposto a aceitar: a maior banda da história do rock já
pertencia ao passado – a um ontem no qual todos os problemas pareciam
distantes.