sexta-feira, 19 de setembro de 2014

McCARTNEY - O PRIMEIRO ÁLBUM A GENTE NÃO ESQUECE

1970. Enquanto um mar de indecisões dominava os negócios da Apple, Paul McCartney sorrateiramente construía as bases de uma carreira promissora que, inevitavelmente, ganharia sua “forçada” estréia no dia 17 de abril de 1970 - data oficial de lançamento do primeiro álbum de canções originais de sua autoria sem levar a assinatura do grupo mais famoso de todos os tempos: The Beatles. Uma banda que muito bem pode ser comparada a uma jóia; um diamante - o qual Paul ajudou a lapidar durante mais de uma década ao lado de seus companheiros. O fim dos Beatles, entretanto, não soaria como as belas melodias das faixas "Maybe I’m Amazed" e "Every Night", incluídas em seu LP solo. Os anos seguintes, dominados pelo interminável processo contra a dissolução da parceria entre John, George, e Ringo (ligados contratualmente graças à união dos mesmos com o empresário nova-iorquino, Allen Klein), transformariam a vida de McCartney em um verdadeiro pesadelo. Sentindo-se inútil e desempregado, Paul começou a criar asas. com o fim de sua banda favorita, agarrou-se com força total ao amor de sua mulher, Linda Louise Eastman – seu “porto seguro” e fonte de inspiração para continuar a compor, gravar canções e tocar ao vivo pelos palcos do mundo pelos anos seguintes.
Após gravar e cuidar da promoção de seu álbum, Paul ainda viu-se obrigado a duelar com a Apple para garantir o lançamento do disco na data estipulada. O matreiro Allen Klein, que agendara "Let It Be" para chegar às lojas menos de um mês depois de “McCartney” enviou Ringo a Cavendish Avenue (à mando de John e George) com a missão de convencer Macca a mudar de idéia e adiar a estréia de sua carreira como artista solo. Enfurecido e amargurado pelo evento, ele sequer deu ouvidos ao baterista chegando a discutir severamente com o amigo. A missão de Klein claramente falhara, e os álbuns venderiam milhões de copias apesar da batalha que parecia longe de estar no final. “McCartney foi um álbum excelente para mim. Fiquei muito feliz em produzí-lo. Era como se eu fosse um cientista em meu laboratório; tudo muito simples, básico e experimental”, recorda Paul. Embora tenha sido gravado quase inteiramente em sua residência londrina, localizada no bucólico e suntuoso bairro de St. John’s Wood, o álbum McCartney também contou com apoio logístico dos estúdios Morgan e Abbey Road, onde algumas canções ganhariam adições de instrumentos e produção final. Para voltar ao estúdio oficial dos Beatles, Linda reservou o Studio 2 da EMI inscrevendo Paul com o pseudônimo de Billy Martin, com o objetivo de afastar o assédio da imprensa – sempre pronta a desvendar os segredos de tudo o que envolvia os membros do quarteto de Liverpool. No estúdio, a atmosfera era completamente familiar, com Linda preparando lanches e o suco de uva para Paul e as crianças, Heather e Mary, que ficavam brincando no chão de madeira com seus brinquedos enquanto esperavam o pai. Poucos dias antes do Natal de 1969, o LP começaria a ganhar forma em um gravador Studer de quatro canais, instalado em seu quarto particular de música. A idéia original era poder mixar as canções utilizando a mesma máquina, mas o atraso na entrega de uma mesa de som acidentalmente mudou os planos de produção do disco, finalizado em fevereiro de 1970.Com a impossibilidade de equalizar o som, Paul teve de registrar as canções de uma forma mais rústica, sendo obrigado a ouvir minuciosamente, tudo o que acabara de tocar para controlar o excesso de graves ou agudos dos instrumentos. Instrumentos, aliás, todos eles tocados pelo próprio artista, com ajuda de Linda nos vocais de apoio e harmonias em algumas faixas. Feliz e, ao mesmo tempo, incapaz de comemorar o final de sua jornada com os Beatles, Paul decidiu não lançar nenhum compacto promocional para o LP. Para anunciar o lançamento de “McCartne”y, um questionário elaborado por Derek Taylor e Peter Brown (assessores de imprensa da Apple), foi anexado as cópias dos discos enviados à imprensa, onde o fim do quarteto de Liverpool era anunciado oficialmente ao público. Na contracapa do LP, uma das primeiras fotos da filha Mary, confortavelmente instalada no casaco de seu pai, era mostrada aos fãs. Com o álbum disponível e chegando em primeiro lugar na América, Paul passaria o resto do ano planejando o seu futuro no showbiz. Durante este período, ele comporia canções para seu próximo álbum, além de faixas que permaneceriam inéditas até hoje, como "Indeed I Do" e "1982." O sucesso do álbum é, sem dúvida "Maybe I'm Amazed", uma das centenas de canções de amor que Paul fez para Linda. Logo após o lançamento do álbum, George Harrison disse que "Maybe I'm Amazed" e "That Would Be Something" eram “ótimas", e considerou as outras faixas como "justas". John Lennon disse o que achava sobre o disco de Paul em sua entrevista de 1970 para a Rolling Stone. Disse que dada a propensão de McCartney para exigir perfeccionismo no estúdio com os Beatles, ficou surpreendido com a falta de qualidade do álbum. Lennon também fez várias observações comparando "McCartney I" negativamente à sua própria estréia como artista-solo. Em 1993, McCartney foi remasterizado e relançado em CD. Não houveram faixas bônus disponíveis. Em junho de 2011, "McCartney e McCartney II foram novamente editados, dessa vez remasterizados em Abbey Road. McCartney traz nada menos que sete faixas bônus.
Agora, a gente confere com absoluta exclusividade do Baú do Edu, a famosa e rara entrevista de Paul de 1970, distribuída para a imprensa junto com o ábum "McCartney".
Por que você decidiu fazer um álbum solo?
Porque eu tenho um equipamento Studer de gravação de quatro canais em casa. Gravei algumas coisas - gostei do resultado e decidi transformá-las em um álbum.
Você foi influenciado pelas aventuras de John com a Plastic Ono Band ou pelo álbum de Ringo?
Não.
Todas as músicas são de Paul McCartney?
São, sim.
Serão creditadas apenas como “McCartney”?
Sim.
Você gostou de trabalhar como artista solo?
Muito. Eu só tinha a mim para tomar uma decisão. Linda está nele também, é realmente uma coisa de casal.
Qual é a contribuição de Linda?
Todas. Ela ajudou nas harmonias, mas é claro que é bem mais do que isso porque ela é um ombro para me apoiar, a segunda opinião, e excelente fotógrafa. Ela acredita em mim - sempre.
Onde o álbum foi gravado?
Em casa, em Abbey Road e no Morgan Studios.
Qual é o seu equipamento em casa?
Um Studer, um microfone e nervos.
Como você escolheu os estúdios que trabalhou?
Eles estavam disponíveis. O da EMI (Abbey Road) é tecnicamente muito bom e o Morgan é acolhedor.
Nenhuma faixa foi conhecida até que o álbum estivesse pronto. Foi uma escolha sua?
Foi, porque normalmente um álbum já fica velho antes mesmo de sair.
Você é capaz de descrever a “textura” do álbum em algumas palavras?
Casa, família e amor.
Quanto tempo demorou para concluir?
Desde um pouco antes do natal até agora. “Lovely Linda” foi a primeira coisa que eu gravei em casa, e era originalmente para testar o equipamento. Isso foi perto do natal.
Supondo que todas as canções são novas para o público, como são para você? Elas são todas recentes?
Uma é de 1959 (Hot As Sun). Duas são da Índia - Junk e Teddy Boy, e o resto são todas bem recentes.
Quais os instrumentos que você tocou no álbum?
Baixo, bateria, violão, guitarra base, piano, órgão mellotron, xilofone de brinquedo, arco e flecha.
Já tinha usado esses instrumentos em gravações anteriores?
Sim.
Por que você quis tocar todos os instrumentos sozinho?
Estava sozinho. E acho que estou muito bem.
Linda será ouvida em todos os registros futuros?
Pode ser. Nós amamos cantar juntos e temos muitas oportunidades para pôr em prática.
Será que Paul e Linda se tornarão um John e Yoko?
Não, eles é que se tornarão Paul e Linda.
O que gravar sozinho lhe ensinou?
Tomar minhas próprias decisões sobre o que faço.
Quem fez a arte da capa?
Linda tirou todas as fotos, ela e eu fizemos o projeto.
É verdade que nem Allen Klein, nem ABKCO foram e nem serão de alguma forma envolvidos com a produção, fabricação, distribuição ou promoção deste novo álbum?
Sim.
Você perdeu os outros Beatles e George Martin. Houve algum momento em que você pensou, "gostaria que Ringo estivesse aqui nesta passagem?
Não.
Supondo que o disco faça sucesso. Quando vai fazer outro?
Mesmo que não faça sucesso, vou continuar a fazer o que eu quero, quando quero.
Você está planejando um novo álbum ou single com os Beatles?
Não.
É o álbum de um descanso longe dos Beatles ou o início de uma carreira solo?
O tempo dirá. Sendo um disco solo significa que ele é "o começo de uma carreira solo ..." e não sendo feito com os Beatles significa que é apenas um descanso. Portanto, ambos.
A sua ruptura com os Beatles, temporária ou permanente, foi devido a diferenças pessoais ou musicais?
Diferenças pessoais, comerciais e musicais. Mas acima de tudo porque eu tenho mais tempo com minha família. Temporária ou permanente? Eu realmente não sei.
Você consegue imaginar Lennon & McCartney compondo juntos novamente?
Não.
O que você acha sobre a campanha de John pela paz, da Plastic Ono Band, e ele devolver a medalha MBE? Influência de Yoko?
Eu amo o John, e respeito o que ele faz – mas isso não me dá nenhum prazer.
Houve alguma das canções do álbum escrita originalmente com os Beatles em mente?
Junk e Teddy Boy.
Você ficou contente com o ábum "Abbey Road”?
Foi um bom álbum.
Qual é a sua relação com Klein?
Eu não tenho qualquer contato com ele. Ele não me representa de forma alguma.
Qual é a sua relação com a Apple?
É o escritório de uma empresa que eu também criei, com os outros três Beatles. Eu não vou lá porque eu não gosto de escritórios ou de negócios, especialmente quando estou de férias.
Você tem planos de criar uma companhia de produção independente?
McCartney Productions Limited.
Que tipo de música lhe influenciou para esse disco?
Leve e solta.
Você está escrevendo mais prolíficamente agora? Ou menos?
Do mesmo jeito. Tenho uma fila de canções esperando para serem gravadas.
Quais são seus planos para o futuro? Férias? Um musical? Um filme? Aposentadoria?
Meu único plano é crescer!


6 comentários:

João Carlos disse...

Tô de passagem... Mas nem se anime que eu volto pra comentar com a decência que esses álbuns e o "post" merecem!

Valdir Junior disse...

Post perfeito !!
Apesar das circunstancias em que foi gravado , na minha opinião é um dos melhores discos do Paul !!

Fábio Simão disse...

Adoro a entrevista do Paul. Mal ou bem sabia de tudo que aconteceria? Já o álbum, sim acho muito bom! Só um músico completo para fazê-lo.

João Carlos disse...

De fato amigo, eu lembro que quando peguei esse disco pensei,como Lennon, que seria uma super-produção. E é! A grandiosidade dele está em sua simplicidade! Excelente postagem!

Murilo Pedreira disse...

Sensacional essa entrevista!!

Edu disse...

:-)