domingo, 27 de março de 2016

JOHN LENNON EM NOVA YORK - OS ANOS DE REVOLUÇÃO - PARTE 5

Só para constar: essa é a postagem nº 6.500. Obrigadão a todos!
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Essa postagem era para ser publicada só no dia 30 de agosto, mas já que está pronta, pra quê esperar? O texto que a gente confere agora é o principal do capítulo 6 - 'Da Próxima Vez A gente Acerta' do sensacional livro de James A. Mitchell - "John Lennon Em Nova York: Os Anos De Revolução".
Para John Lennon, o show beneficente One-to-One era muito mais do que apenas uma apresentação única; o show de 30 de agosto de 1972 era para ser o primeiro de muitos. “Eu estava pronto para sair em turnê por pura diversão” disse Lennon à Rolling Stone sobre suas expectativas. “Eu não queria cair na estrada por dinheiro. Minha vontade era sair por aí tocando, simplesmente. Qualquer pretexto — caridade ou o que fosse — bas­taria para me convencer.”
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De volta a Nova York, John e Yoko passaram a segunda quin­zena de agosto ensaiando com a Elephant’s Memory. Reza a lenda que, devido às queixas dos vizinhos contra as longas, intensas e ruidosas sessões num espaço alugado na Rua 10, por eles batizado Butterfly Studios, os ensaios foram transferidos para a Fillmore East, uma casa de espetáculos na 2a Avenida.
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O fotógrafo Bob Gruen lembra que Lennon abraçou a intensa programação de ensaios, deixando que sua paixão pela música superasse sua ansiedade quanto ao desempenho. “O espaço estava totalmente impregnado do espírito do rock and roll’’ disse Gruen.7 O denominador comum da música servia para descontrair e unir o grupo, um vínculo que se mantinha durante os jantares no Home, um restaurante na Rua 91 que Lennon passara a curtir, e, numa notável ocasião, numa casa de Chinatown conhecida por oferecer um bar completo. Gruen disse que essa longa noite ficou ainda mais longa quando Lennon — que sempre pagava os jantares do grupo — se deu conta de que não tinha dinheiro. Como ninguém mais tinha, serviram-se rodadas adicionais de bebidas enquanto espera­vam um dos assistentes de John e Yoko sair da cama para trazê-lo. A seleção final seria feita entre dezenas de músicas preparadas pelo grupo, com arranjos repassados um sem-número de vezes. Lennon cantava falando, ou sussurrando, para não prejudicar a voz antes do show. Lennon confiava na música, diz Adam Ippolito, pelo menos no que dizia respeito à banda. O som fora reforçado com acréscimos na seção de ritmo: o baterista Jim Keltner, colaborador frequente nos dois primeiros álbuns pós-Beatles de Lennon, e John Ward, ex-baixista da Elephants Memory. “Lennon se sentia muito bem nesse momento’’ conta Ippolito. “O grupo estava afinado. E ele estava pronto.” Os Elefantes precisavam estar preparados. O show representava um salto de qualidade em relação a tudo o que a banda já fizera em sua carreira: por mais entusiasmado que fosse o público do Max’s Kansas City, tocar em casas noturnas era muito diferente de se apresentar em uma arena lotada de gente ávida por aplaudir uma lenda da música. Os Elefantes se recordam de que Lennon e a Apple fizeram questão de usar um equipamento adequado a gran­des arenas, como o Madison Square Garden. Lennon era tão pró­digo com a sua música quanto com os jornais underground e os ideais de esquerda, lembra Tex Gabriel.
“Os Lennon tinham um cara que era o responsável pela mala preta’’ diz Gabriel. “Dentro da mala havia milhares de dólares em dinheiro vivo; maços de dinheiro, como se fossem roubados de um banco ou algo assim. John o mandou pegar uma bolada para com­prar amplificadores Marshall e o que mais fosse preciso. Alugar, não. Comprar.” Os Elefantes calcularam que Lennon deve ter gasto uns 100 mil dólares com os equipamentos.
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“Hoje nem parece tanto”, diz Van Scyoc, “mas 100 mil dóla­res em equipamentos era um bocado de dinheiro naquela épo­ca.” Ele lembra que ficou impressionado com a qualidade do material, um claro indicador de que Lennon tinha planos muito maiores do que o show beneficente. Era o momento pelo qual os Elefantes vinham esperando: a primeira turnê de Lennon como artista solo. “Quando aquilo veio à tona, nós pensamos: ‘Meu Deus, traba­lho!’ e caímos dentro”, diz Van Scyoc. “Como Elephant’s Memory nós não tocávamos, nem no melhor dos nossos sonhos, em lugares como o Garden. Tocamos uma vez para 3 mil formandos, mas isso foi o auge, o máximo a que conseguimos chegar.” Mais do que um simples show, o “Concerto para Libertar as Crianças de Willowbrook” — assim batizado pela revista Billboard — foi o clímax do “One-to-One Day” em Nova York — palavras do prefeito John Lindsay. A participação de Lennon não se limitou aos ensaios e à apresentação: ele e Yoko reuniram 15 mil voluntários e pacientes de Willowbrook para um piquenique antes do show no Sheep Meadow, com jogos, música, passeios de balão e encon­tros com um ex-Beatle itinerante. Deliberadamente, fez-se pouco alarde do piquenique. Lá, Len­non encontrou o equilíbrio que vinha buscando: usou sua fama para promover a causa sendo apenas um a mais na multidão, e não o líder, o foco de todos os holofotes — algo que seria inevitável quando subissem ao palco.
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"BEM-VINDOS AO ENSAIO”, assim Lennon saudou as cerca de 15 mil pessoas que foram ao Madison Square Garden naquela tarde para o primeiro dos dois shows. No palco substancialmente nu mal cabiam os músicos e os amplificadores. A luz inclemente dos spots destacava os óculos de Lennon, de aros metálicos redondos e lentes azuis. Ele usava uma roupa típica do Village — camiseta sob uma jaqueta verde-oliva do Exército dos Estados Unidos com divisas de sargento, um sím­bolo da Segunda Divisão de Infantaria e o nome Reinhardt. Mas, apesar do aspecto confiante, os Elefantes sabiam que Lennon es­tava um bocado nervoso. Havia muita coisa em jogo: provar o seu valor com um material não muito bem-recebido pela crítica e — algo com que todos os ex-Beatles tiveram de lidar - atender, ou não, as expectativas do público sobre as músicas que iria tocar. Todos tinham suas expectativas, os Elefantes inclusive, como re­corda Gary Van Scyoc: “Nós queríamos tocar um monte de músi­cas dos Beatles” diz. “Mas Lennon só topou fazer ‘Come Together’. Ensaiamos umas dez músicas, mas essa era a quente; e foi nessa que mandamos ver.”
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A banda teve a oportunidade de tocar na abertura do concerto — ao lado de Sha Na Na, Roberta Flack, Melanie e Stevie Wonder, que se apresentaram de graça, em benefício da causa. Mas o foco das atenções era claro, assim como a esperança de um pouco de nostalgia musical. “Nós só vamos voltar ao passado uma vez” enfatizou Lennon antes de atacar “Come Together”. Lennon parece haver tentado se precaver quando brincou com a multidão: “Vocês provavelmente se lembram dessa melhor do que eu (...) é sobre um old flattop.” As palavras que cantou a partir do verso “Here come old flattop” — uma música toda feita de fragmentos imagéticos - não batiam com as do LP Abbey Road, tão conhecido pelos fãs. Além de tropeçar aqui e ali, como em “over you”, em vez de “over me”, ele parecia não saber se o cabelo “ia até” ou “ficava abaixo” dos joelhos. Cada tropeço era uma careta. “Eu acertei a letra quase toda”, disse ao término da canção. Balançando a cabeça, sentou-se ao piano e arrematou: “Tenho que parar de escrever essas letras doidas, cara; eu nem sei o que estou dizendo. Estou ficando velho.”
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Os Elefantes seguraram bem aquela onda, fazendo das tripas co­ração para não decepcionar Lennon. Adam Ippolito diz que o show, que durou mais de uma hora, foi uma pressão muito diferente e bem maior do que tocar uma ou duas canções na TV. “Lennon estava inseguro e ficou chateado com alguns erros” lembra Ippolito. “Mas a maioria nem percebeu.” O repertório, que continha uma importante seleção de mú­sicas de Some Time in New York City, permitiu à banda demonstrar que não estava ali para substituir Paul, George e Ringo, mas, sim, ocupar seu lugar na nova vida musical de Lennon. Foram cinco canções de Some Time: “Woman Is the Nigger of the World”, “Sisters  O Sisters”, “Born in a Prison”, “We’re All Water” e, é claro, “New York City”, que incendiou o público do Madison Square Garden. Os dois primeiros álbuns pós-Beatles de Lennon foram bem representados: “Imagine” foi “um dos carros-chefes do programa”, lembra Van Scyoc. De seu repertório solo, Lennon tocou algumas canções famosas: “Instant Karma” a escaldante “Cold Turkey” e a cantante “Give Peace a Chance”, acompanhada pelo público com os pandeiros recebidos na entrada. A menos conhecida, “Well, Well, Well”, foi jocosamente introduzida ao público como “uma canção de um dos discos que gravei desde a minha saída dos Rolling Stones”.
Nervosismo à parte, Lennon bem que se divertiu. Seu melhor sorriso nessa noite foi quando estraçalharam “Hound Dog” de Elvis Presley: um rock da velha guarda que fez Lennon e Gabriel dança­rem com suas guitarras e Stan Bronstein sair pelo palco com uma moça a requebrar o corpanzil. Os Beatles eram conhecidos por começar suas sessões de gravação brincando com as músicas que tocavam nos dias do Cavern, um hábito que Lennon manteve com os Elefantes. “Nos ensaios, costumávamos tocar essas músicas para esquen­tar” conta Van Scyoc. “Não era uma coisa consciente, era um jeito de entrarmos em sintonia. Pegávamos canções antigas de Chuck Berry, aquela coisa da década de 1950. Sempre que John queria relaxar, era para lá que ia.”
O One-to-One teve momentos de puro Lennon — a essência de sua vida artística. Mesmo num show destinado a uma causa hu­manitária, Lennon conseguiu criar uma conexão pessoal de um modo que poucos músicos seriam capazes de fazer. Ele continuava sendo um cantor-compositor essencialmente pessoal, capaz de criar um vínculo íntimo com seu público. Quantos seriam capazes de escrever uma canção como “Mother”? Quantos poderiam cantá-la de modo tão sincero? Um único spot, acordes simples de piano e uma voz ferida que revelava a sua dor mais profunda a milhares de amigos. “Ele botou aquilo tudo pra fora”, diz Gabriel. Aquilo que o público viu deixou arrepiados os guitarristas, que estavam a 3 metros. “Era Lennon nu e cru, totalmente real; não tinha fingimento.” Quaisquer falhas e imperfeições cometidas naquela tarde e noi­te eram suas, dissera com franqueza. Críticas à parte, Lennon deu toda a impressão de que queria voltar lá e fazer melhor. “Da próxima vez a gente acerta” falou, perto do fim do espetá­culo, numa breve menção a falhas ocasionais provavelmente nem percebidas pelo público. Mas não houve próxima vez. John Lennon nunca mais deu um show completo; seu nome nunca mais brilhou nos letreiros das grandes arenas do país e do mundo; uma ou outra breve apresenta­ção de uma ou duas músicas ao longo dos dois anos seguintes e só. Os shows de Lennon no Madison Square Garden em 1972 ficaram como o ensaio-geral de uma turnê inacabada, um legado de can­ções jamais ouvidas.
Sob certo aspecto, os concertos One-to-One foram um abso­luto sucesso. A atenção pública e a conscientização suscitadas pelo trabalho de Geraldo Rivera geraram uma avalanche de benefícios. A quan­tidade de ajuda recebida, ao longo dos anos, pelos pacientes e suas famílias, foi incalculável. Preocupado com as recentes acusações de desvio de recursos gerados em shows beneficentes, como aconteceu com Allen Klein no Concerto para Bangladesh de George Harri­son, Lennon declarou durante o espetáculo esperar que o dinheiro arrecadado chegasse aos seus destinatários. E dessa vez ele chegou. Os fundos levantados foram canaliza­dos para três instituições beneficentes de Nova York, que os desti­naram à construção de moradias para os pacientes de Willowbrook, entre outros com necessidades similares. A ABC pagou, segundo foi informado, 300 mil dólares pelos direitos de filmagem e inicia­ram-se negociações para a produção de um álbum. As receitas de rádio e teledifusão e da venda de discos somariam mais de 1,5 milhão de dólares no decorrer do tempo. A contribuição de 60 mil dólares à causa feita por Lennon na compra de ingressos para pa­cientes e cuidadores não foi registrada nos relatórios do FBI; eles preferiam especular sobre as contribuições de Lennon a beneficiá­rios duvidosos. A receptividade dos fãs e da crítica foi diversa. O astro principal recebeu os elogios de costume, mas Lennon se aborreceu uma vez mais com a ânsia com que alguns se empenhavam em ridicularizar Yoko Ono, premiada aos olhos de seus detratores com um excesso de vocais solos.
“Todo mundo adorou o grupo” lembra Gary Van Scyoc. “Mas a presença dela era muito forte e isso incomodava um pouco as pessoas.” Mas nem todos os críticos eram anti-Yoko. Um de seus defen­sores era Toby Mamis, da revista Soul Sounds.9: “Muita gente não curte a música de Yoko Ono” escreveu Ma­mis. “Mas eu penso que ela está buscando novos rumos para o rock e que nós devemos ir junto para ver o que ela descobre. Tem muito avestruz por aí que enfia a cabeça na terra e faz de conta que tudo será sempre como está agora. Isso não é verdade. Alguém tem que descobrir para onde vamos e Yoko, dentre outros, está procurando.” Mamis lembrou aos céticos que se tratava da primeira grande produção própria de Lennon e que a Elephants Memory — “uma banda de hard rock do cacete” — era o primeiro grupo estável de músicos com que Lennon trabalhara desde os Beatles, com o qual ele gravou, ensaiou, “planejou e viveu a expectativa de um show ao vivo”.
A conclusão da Rolling Stone era ambígua: “O desempenho [de Lennon] foi uma prova daquilo que todo mundo sempre soube: que ele é um compositor fantástico e um cantor poderoso, inteli­gente e expressivo.” Lennon “parecia estar se divertindo muito”, ao conseguir a proeza de “dar vida a ‘Woman Is the Nigger of the World’, uma música horrível, afrontosa, cuja correção política não compensa [a má qualidade da letra]’! Anos depois, em 1986, David Fricke, da Rolling Stone, fez um retrospecto do show por ocasião do lançamento de um video do concerto. Separando o trigo do joio, Fricke aplaudiu o “comovente entusiasmo do canto de Lennon” e “o surpreendente fôlego do pro­grama’! Elogiou a Elephant’s Memory — “uma banda de esquerda de Nova York” — por seu sólido trabalho. O concerto do Madison Square Garden seria lembrado por sua raridade e por seu conteúdo. “Lennon clássico” qualificou Fricke. “Ele está todo aqui: seu humor, sua dor, sua ira e sua fé inabalável no poder do rock and roll de mudar o mundo.”
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Legal demais, não é? É sim! Pois quem gostou, faça um comentário bem bacana e não deixe de conferir também:

JOHNLENNON EM NOVA YORK - OS ANOS DE REVOLUÇÃO – PARTE 2

JOHNLENNON EM NOVA YORK - OS ANOS DE REVOLUÇÃO – PARTE 3

JOHNLENNON EM NOVA YORK - OS ANOS DE REVOLUÇÃO – Parte 4
Para encerrar com chave de ouro, a gente fica agora com dois grandes momentos do show - "Come Together" e "Mother" - e por último a apresentação completa de Lennon e os Elefantes. Aquele abração! Feliz Páscoa para todos!

5 comentários:

Edu disse...

Fundamental e indispensável o livro "John Lennon in New York - Os Anos da Revolução". Esse episódio desse show foi determinante para que John encerrasse ali sua história com o show business definitivamente da forma como todos conhecemos. Viva John Lennon! Viva a Elephants's Memory! Viva Wayne Tex Gabriel! "Bom trabalho. Na próxima a gente acerta".

João Carlos disse...

Pois num é que o Baú guardou o chocolate da Páscoa pro momento certo?Excelente. Uma pena que Lennon não repetiu mais esse show. Certamente, como sempre ocorre, ele ficaria melhor que ótimo e daria um disco ainda melhor. Ou não foi o que aconteceu com o Rockshow?

Anna Holliday disse...

Muito legal, Edu! Show!

Valdir Junior disse...

Pena que esse período tenha sido tão conturbado na via do John, a musica que ele fez nessa época são a mais roqueiras de sua carreira solo e apesar do concerto no Madison Square Garden não tenha ficado do jeiro que ele queria, mesmo assim foi muito bom.

Joelma disse...

"since a left the rolling stones" Hahahahhh!Morro de rir.