domingo, 6 de março de 2016

THE BEATLES - VOX - IT'S WHAT'S HAPPENING

É impossível dimensionar o impacto que as amplificações de guitarra causaram na história da música mundial. O surgimento do amplificador de possibilitou que os precursores do Rock’n Roll canalizassem toda sua energia para, em seguida, colocar o mundo em chamas. Depois disso, muitas décadas se passaram, mas o fogo nunca se apagou. Os primeiros amplificadores surgiram nos anos 30, usando válvulas de rádio e a tecnologia hi-fi da época. Conforme a guitarra elétrica foi se tornando popular, nos anos 50, surgiram os primeiros amplificadores especiais para esse instrumento, cujos modelos em geral combinavam um amplificador valvulado com um ou dois alto-falantes de 30 cm (12 polegadas). No final dos anos 60, a moda eram os amplificadores de elevada potência, com sistemas de grandes caixas de som independentes. Nos anos 70 surgiu a tecnologia solid-state, mais barata, com os transístores substituindo as válvulas. Os amplificadores valvulados, contudo, são os preferidos de 11 entre 10 guitarristas profissionais.
Esse texto que agente confere agora veio literalmente, lá do fundo do Baú do Edu. Foi publicado na saudosa revista “Violão & Guitarra” – Especial nº 7 – The Beatles, que, apareceu aqui pelo menos umas duas vezes, inclusive para download: a primeira foi em 21 de outubro de 2011 – “THE BEATLES – O SONHO DE UM GAROTO DE 14 ANOS” e a segunda, um mês depois em 22 de novembro de 2011 – “THE BEATLES - O SONHO DE UM GAROTO DE 14 ANOS - Parte 2 – O final feliz”. O texto é assinado apenas por duas iniciais (EC). Espero que gostem.
Se hoje em dia existem concertos de rock, com sistemas de amplificação, caixas acústicas, amplificadores de grande potência, pedais de efeitos, tudo, em boa parte, se deve aos Beatles. Eles foram os grandes "magos da música eletroacústica". Através deles as técnicas de instrumentação, de gravação se aperfeiçoaram e se desenvolveram ao ponto em que hoje as conhecemos e ouvimos. Ouvindo as gravações do período mais antigo dos Beatles, é de se admirar a sua excepcional qualidade, considerando-se as condições da época, que dificultavam trucagens, cortes, emendas ou até mesmo a dublagem dos vocais. A primeira gravação tem sua data fixada em 11 de setembro de 1962. Por essa época o equipamento mais avançado existente possuía dois/três canais. Gravava-se todo o instrumental em uma das faixas, já mixado, isto é, o nível dos instrumentos já era colocado direta¬mente na fita, com volumes e timbres já regulados. (Atualmente pode-se fazer as grava¬ções com 16, 24 ou 36 canais, todos juntos ou um de cada vez. Depois reproduz-se os sons gravados na fita, que possui 4 polegadas de largura, novamente pela mesa de gravação, onde são controlados os volumes, timbres, ecos, filtros, para a reprodução em estéreo, em um processo chamado mixagem. Nas outras duas faixas da fita eram colocados os vocais e mais algum outro efeito, como percussão, gaita, etc.
Os amplificadores eram Vox, equipamento desenhado por Tom Jennings, na Inglaterra e que, como boa parte das coisas inglesas, eram e ainda o são uma jóia de perfeição (Vox Sound LTD. 57/87 Hampstead Road, London N.W.1). Durante bom período de tempo, os Beatles usaram exdusivamente Vox e, através de algum acordo entre partes jamais revelado publicamente, os Beatles apareceram endossando o equipamento de Tom Jennings que, em troca, provavelmente desenvolveu para o grupo uma série de amplificadores culminando com os famosos Vox Super Beatle, um modelo com carrinho, que foram usados nas apresentações ao vivo, nos EUA e nas demais excursões, em grandes lugares. As guitarras desse primeiro período são: uma Rickenbacker 6 cordas vista com John; baixo Hofner, modelo violino, mais antigo (havia um captador para médios e um para graves, não havia captador para agudos) para Paul. George usava uma Gretsch preta, semelhante à Les Paul, provavelmente maciça, com alavanca Bigsby. Ringo aparece nas fotos com um kit Premier, com um tontom, um prato, semelhantes aos modelos até então utiliza¬dos pelos grupos de jazz.
Na gravação de 'Love me do', foram utilizados também dois violões elétricos, modelo folk, da Gibson. Quando o dinheiro começou a entrar, o equipamento foi sendo melhorado: George com um par de Gretschs, Tennessean e Chat Atkins, John pintou sua velha Rickenbacker de preto (p. 11), continuando com ela por um bom tampo até Neil Aspinall perdê-la em um show no Finsbury Empire, em Londres. Psteriormenteenta foi reposta com duas novas exata-mente iguais. Ringo adquiriu um kit Ludwig. Paul trocou seu Hofner antigo por um modelo mais moderno, com um dos captadores deslocado para agudos. Com poucas modificações o equipamento continuou o mesmo durante algum tempo. Em sua primeira excursão aos EUA, George comprou sua Rickenbacker de 12 cordas que traria uma reconhecível modificação no som do grupo ('You Can't Do That', "A Hard Day’s Night', 'If I Needed Someone').
Nas apresentações dos Beatles por esta época era heróico tocar em lugares tão grandes sem disponibilidade de equipamento. Embora os Vox Super Beatle já tivessem em 65/66 cerca de 160w, um para John, outro para George, outro para Paul, a bateria de Ringo não possuía nenhuma amplificação, nem no bumbo. No disco recentemenfe lançado pela Emi-Odeon, 'Live at Hollywood Bowl' pode- se ter bem uma ideia da coisa. Os microfones que aparecem na frente dos amplificadores e sobre Ringo são os usados pela gravação, não havia sistema de som! A voz era na maioria das vezes ligada no equipamento standard dos teatros ou em equipamentos pequenos como o Vox Churchill, Davoli (italiano) ou Echo- delle (alemão), no máximo com 200w. No Hollywood Bowl havia 17.000 pessoas gritando. No Shea Stadium, em 1966, 60.000 pessoas e a mesma coisa, ainda não havia amplificação para Ringo, e mesmo os vários amplificadores usados não davam conta do recado. A maioria das pessoas utilizou rádios portáteis para ouvir alguma coisa acima da gritaria — o show foi retransmitido por uma cadeia de rádio. Neste show do Shea Stadium, em 1966, Paul usa ainda seu baixo Hofner, em parte por seu som pesado, parte pela leveza do instrumento se comparado a outros modelos. De fato, o Hofner deveria acompanhar Paul até sua última apresentação ao vivo, no teto dos escritórios da Apple em Saville Row, gravando 'Get Back'. No Shea, George e John usam guitarras Epiphone sunburst, a de George com alavanca Bigsby, e que eram na época fabricadas pela Gibson. São exatamente o mesmo modelo das atuais ES335, ES345, da Gibson, excetuando-se pela paleta, que pos¬suía desenho diferente. John continuou usando a sua Epiphone até as últimas gravações, raspando-lhe a pintura e deixando-a natural, branca. Com esta guitarra grava o elepê branco, participa de um festival em Toronto, com Eric Clapton, Klaus Voorman, Alan White e Yoko Ono (Plastic Qno Band Live at Toronto), grava 'Abbey Road' e 'Let It Be'. Nos palcos das apresentações sempre era possível encontrar mais de um instrumento de cada de reserva, no caso de cordas arrebentarem ou de desafinação.
As apresentações ao vivo duraram o quanto eles puderam aguentar. O mundo musical passaria a ganhar muito mais com a retirada dos Beatles dos palcos. Os anos de es­túdio iniciaram-se após a última turni pelos EUA em 1966, e com eles o melhor trabalho dos Beatles. ‘Rubber Soul’  já foi feito em quatro ca­nais. Já havia mais segurança nas gravações e o disco marca o Início oficial das experimen­tações sonoras. Tentativas bem sucedidas antecederam-se, como a microfonia em ‘I Feel Fine', ou o pedal de volume em 'I Need You'. Auxiliados por George Martin foi possível utili­zar orquestras, metais e outros músicos (Elea­nor Rigby, She's I eaving Home) quando Martin agia como tradutor das ideias dos com­positores para a linguagem musical. Os anos de estúdio foram férteis na busca de novas concepções musicais, quando toda sorte de ins­trumentos foi utilizada. George toca cítara, Gibson SG, violões Gibson Fender Stratocaster ('Magical Mystery Tour'), Fender Telecaster ('Let It Be'). John toca guitarra havaiana, baixo de seis cordas (Fender VI), violões acústicos Mar­tin, Gibson, e sempre acompanhado de sua Epiphone. Paul no estúdio passou a usar baixos Fender Precision, Rickenbacker ('Magical Mys­tery Tour'). Ringo continuou fiel ao seu kit Ludwig, além de m ara cas, pandeiros, tumbado- ras, guizos, tudo em que pudesse botar a mão. Além dos instrumentos pessoais, era pos­sível encontrar de tudo no estúdio, piano de cauda Blüthner, órgão Hammond com leslie, piano elétrico, celestes, e enumerar tudo tomaria páginas sem fim. Nos álbuns posterio­res a 'Sgt. Peppers' a amplificação mais frequen­temente usada era Fender, Dual Showman, Bassman e Twin Reberb.
'Rubber Soul', 'Revolver', 'Sgt. Peppers' e 'Magical Mystery' foram gravados em quatro canais. Atualmente, qualquer bom gravador semiprofissional de quatro canais possui tanta qualidade quanto o equipamento existente na época. O primeiro estúdio de oito canais da Inglaterra foi usado pelos Beatles no álbum branco, duplo. Uma variedade maravilhosa de músicas, embora já se pudesse notar o indivi­dualismo das composições e arranjos, John e o grupo, George e o grupo. Paul e o grupo.
'Let It Be' foi gravado antes de 'Abbey Road', mas por problemas de produção foi lan­çado como o último elepé dos Beatles, 'Abbey Road’ representa o derradeiro esforço dos Beatles como grupo, um disco tão bem produ­zido, gravado, executado e mixado que pode aproximar-se à concepção perfeita de 'Pepper's'. No disco estão excelentes composições de John, George, Paul e Ringo, e novos horizontes nos arranjos com a utilização, pela primeira vez em música popular, do recém-criado e adquirido sintetizador Moog de George ('Here Comes The Sun, 'Because', 'Maxwell Silver Hammer,), ironicamente como se a solução para os pro­blemas de ego dos quatro tivesse sido mo­mentaneamente encontrada.
Há uma geração talvez um pouco mais rica que as demais. Ela teve a moldura, o ce­nário da música dos Beatles e por quase uma dé­cada uma linguagem comum foi falada por milhares de jovens no mundo todo. Os qut tiveram a felicidade de crescer, amar, chorar e rir com a música do Beatles são pessoas me­lhores. (EC)
Para encerrar com chave de ouro, a gente fica com a parte final do especial “It’s The Beatles” de 1963, com os rapazes quebrando tudo. Absolutamente sensacional!

2 comentários:

Valdir Junior disse...

Bom post Edu, é muito bom falar dos equipamentos e instrumentos usados pelos Beatles, eles todos ficam no nosso imaginário, lá fora tem alguns livros que mostram e comentam com fotos a maioria deles.
Um amplificador Vox é sonho de consumo de todo fã dos Beatles que é musico. São amplificadores muito bons e muito caros. Um dia ainda vou ter um.

João Carlos disse...

Rapaz, lembro de George gozando o fato de terem 100 watts no Anthology. Mas a matéria é bem esclarecedora.