quarta-feira, 15 de junho de 2016

PAUL McCARTNEY - BAND ON THE RUN - 2016

Por Márcio Ribeiro - http://whiplash.net/

Este ano, o álbum Band On The Run está completando 42 anos de lançamento. Este é um disco dos mais especiais na carreira de Paul McCartney, e que efetivamente mudou esta carreira. Para quem não lembra, ou não estava vivo na época, o Beatle Paul não era mais o mesmo aos olhos do grande público e da maioria dos críticos. Apesar de seus discos em carreira solo venderem mais do que os de um artista comum, havia sempre a sensação de que estes primeiros trabalhos após o fim da dupla Lennon-McCartney, não estavam à altura de sua capacidade quando com os Beatles. Indiscutivelmente um ás quando se tratava de criar uma melodia que agradasse os nossos ouvidos, Paul continuava a conseguir colocar seus compactos nas paradas de sucesso. Seu primeiro album, chamado simplesmente de McCartney, apesar de atingir No.1 em vendas no ano de 1970, não teve nenhum lançamento em compactos, portanto nenhuma canção nas paradas. A canção “Maybe I’m Amazed” deste disco seria um sucesso sete anos mais tarde por conta de sua excursão americana em 1977. Sua primeira visita as paradas de sucesso na década de setenta foi com “Another Day”, que chegou a No.2 no UK e No.5 nos USA. “Uncle Albert/Admiral Hasley”, retiradas do album Ram, disco que chegou em No.2, só agradou o mercado americano, chegando ao topo das paradas da Billboard, mas foram completamente ignoradas em sua terra natal. Por outro lado, sua tentativa de se equiparar ao seu ex-sócio no quesito de canções com cunho político, encontrou em “Give Ireland Back To The Irish,” primeiro compacto dos Wings lançado em 1972, poucos aplausos. Ainda assim, a canção se posicionou entre os vinte mais no Reino Unido. O compacto sequer apareceu nas paradas americanas. Ao ser criticado por lançar algo tão político, sua resposta foi lançar uma ciranda infantil chamado “Mary Had A Little Lamb.” Ironicamente, a canção de fato agradou e foi erguido a um honrosso No.6 no Reino Unido e No.28 no amplo mercado americano. O curioso “Hi Hi Hi” foi outro lançamento que pouco ajudou o grande público a voltar a abraçar o artista como em outros tempos. Ainda assim, ganhou um No.5 no UK e No.10 nos USA, não exatamente posicionamentos para seu típico fracasso. Nenhum destes compactos foram retirados de material dos seus albuns, salvo “Uncle Albert/ Admiral Hasley.” O terceiro álbum, Wild Life, inaugurava a nova banda de Paul McCartney, o Wings. O disco atinge No.10 como sua pontuação mais alta. Apesar de não se tratar de um disco ruim, em termos de vendas, este recebeu a pior resposta do público para um de seus lançamentos. Novamente podemos lembrar que haveriam centenas de bandas que venderiam a alma por um No.10, mas de um nome como Paul McCartney, todos experam muito mais. O disco não ofereceu nenhuma canção para as paradas. Nada parecia agradar inteiramente a expectativa que se tinham para o Beatle Paul. A redenção começava exatamente em 1973. Primeiro foi com seu primeiro hiper mega sucesso, “My Love”, tranquilamente sua melhor composição desde “The Long And Winding Road.” A canção retirada do razoável disco, Red Rose Speedway, leva Paul McCartney novamente a No.1 nas paradas mundiais. Depois veio o também instigante compacto “Live And Let Die”, trilha sonora do filme homônimo do agente-secreto James Bond. Paul McCartney se torna o primeiro artista pop a contribuir com a canção tema para a serie, que chegou a curiosa posição de No.(00)7 na Inglaterra, e No.2 nos USA, perdendo apenas para “Touch Me In The Morning” de Diana Ross. A canção também faz parte de uma trilha sonora, Lady Sings The Blues, que conta a historia de Billy Holliday, e estrelada por Ross. Mas foi em dezembro, com Band On The Run que Paul McCartney conquistou todos, os seus criticos, como também o público geral, e não apenas os fãs do Paul ou os órfãos dos Beatles. Este é o disco que renovou a moral do artista e obrigou as pessoas a levar Paul e depois sua banda Wings, um pouco mais a sério. O album foi e voltou das paradas de sucesso tantas vezes que praticamente freqüentou as paradas durante todo o ano de 1974. Em seu primeiro pique, durante os meses entre dezembro e março, Band On The Run saiu em No.33 e chegou em seu auge ao No.7 no mês de fevereiro. Depois de uma queda, voltou a subir chegando a No.1 em abril. Tudo isto sustentado em parte, na força do compacto “Jet/Let Me Roll It.” O álbum caiu novamente retornando mais uma vez a No.1 em junho após o lançamento de outro compacto, “Band On The Run/Zoo Gang.” O álbum desceria para No.2 e então retornando pela terceira vez a No.1 em julho, já seis meses após seu lançamento. Depois disto, o album conseguiu ficar dependurado nas paradas em diversas posições entre os cem mais até novembro. Despencou mais ainda permanecendo nas paradas de sucessos entre os 200 mais, até desaparecer definitivamente em 199o lugar em maio de 1975. Isto quer dizer que o album permanesceu nas paradas de sucesso interruptamente durante dezesseis meses, um feito que não é visto muitas vezes. Curioso é que, ao analisar as questões envolvidas na gravação do disco, este, de todos os outros discos, foi o que encontrou a maior quantidade de dificuldades e portanto, seria teoricamente o mais apto a fracassar. Alguns dos envolvidos no projeto concluem que foram justamente estas ditas dificuldades que uniram o grupo para produzir cada um, o seu melhor. Problemas começaram a partir dos ensaios, que foram iniciados no final de julho de 1973, pouco depois da excursão inglêsa dos Wings, que promovia o álbum Red Rose Speedway. A banda nesta ocasião era formado por Paul e Linda McCartney, ex-Moody Blues Denny Lane, ex-Grease Band Henry McCullough e baterista Denny Seiwell, um americano que Paul e Linda conheceram em Manhatten supostamente pedindo esmola na rua. Os ensaios foram realizados na fazenda dos McCartneys em Campbeltown, na Escócia. Logo na primeira semana de ensaios, a relação entre Paul e Henry, que já andava estressado durante a excursão, voltara a ser tensa. Henry McCullough cansado das exigências musicais do Paul, sempre determinando como tudo tem que ser feito, abandonou o ensaio, deixou a fazenda, a Escócia e não olhou para tras. Embora um pouco irritado com o ocorrido, Paul sabia que para gravar o novo disco, ele poderia tranquilamente dividir com Denny Lane os solos e que tudo estava contornável. Pensando em uma mudança de cenário, McCartney pediu à EMI uma lista de seus estúdios pelo mundo afora. Na lista, considerações cairam para Bombaim na India, Beijing na China, Rio de Janeiro no Brasil e Lagos na Nigeria. Ganhou a Nigéria simplesmente pelo fascínio de se gravar na Africa. Sessões foram marcadas para setembro, mas na véspera de viajar, o baterista Denny Seiwell telefona para dizer que ele não vai. A ideia de gravar na Nigéria lhe pareceu demasiadamente esdrúxula, talvez. Paul resolve então assumir a bateria e o grupo, agora um trio, viaja assim mesmo, aterrisando em Lagos no dia 30 de agosto.

Ao chegarem em Lagos, logo perceberam quão mal planejado fora todo o projeto. Descobriram que o país estava sobre domínio militar já fazia sete anos e que soldados com metralhadoras poderiam ser encontrados em qualquer ponto da cidade. Viram um grande numero de pessoas pedindo esmola, mas o que lhe parecia mais absurdo era que muitos destes eram leprosos, andando no meio do povo. Ficaram chocados ao encontraram varias valas com esgoto a céu aberto ao lado das ruas. Rapidamente perceberem também que absolutamente nada era resolvido sem molhar a mão de alguém. O clima de Lagos também foi motivo para desânimo. Setembro sendo véspera da estação de chuvas, o calor era insurportável e isto teve seqüelas. Certa noite Paul não conseguiu encontrar ar. Ele foi para a rua tentar respirar ar puro mas era uma noite de calor tão abafada que ele acabou desmaiando. Linda o acudiu, apavorada pensando que ele estivesse morto. Levado a um hospital, o médico, sem encontrar motivo para alarde, apenas recomendou que Paul pare de fumar ou pelo menos diminua consideravelmente o seu hábito. Em Londres, um médico concluiu que ele sofrera de um espasmo dos brônquios. Todas essas coisas trouxeram uma certa tensão para o projeto, mas o pior ficaria para o primeiro dia de trabalho. O estúdio da EMI ainda não estava completamente construido, iniciando uma caça à microfones, necessidade de molhar a mão das pessoas para acelerarem a construção da cabine a prova de som, e terminar de instalar a fiação da mesa de som. Com o trio, veio o engenheiro de som Geoff Emerick, ás que participara de inúmeros projetos dos Beatles como Revolver, Sgt. Peppers e Abbey Road. Seus conhecimentos e habilidades definitivamente foram postos à prova neste projeto. O gravador do estúdio era uma velha Studer de oito canais de segunda mão, que provávelmente já vira melhores dias. A tropa alugou duas casas, relativamente perto uma da outra. Uma para a familia McCartney, outra para a equipe, que compreende Denny Lane, Geoff Emerick e os dois roadies, Ian e Trevor. Na Escócia, onde a maior parte das músicas foram efetivamente compostas, Wings havia gravado uma série de fitas demos, com as novas canções e seus arranjos rudimentares. Em uma caminhada entre a casa de Denny Lane e seu bangalô alugado, Paul e Linda são assaltados por cinco homens armados com uma faca. Perderam dinheiro, toca fita e as fitas demos com todo o material. A partir deste momento, o trabalho de gravar as músicas, que alias ainda não havia começado porque o estúdio não estava pronto, ficou em segundo plano. A primeira exigência recaía agora em Paul com a ajuda de Linda e Denny, tentarem lembrar as músicas novas, não necessariamente as letras que estavam anotadas em papel, mas como elas eram tocadas e qual eram seus arranjos, informações perdidas naquelas fitas. Se não bastassem estes incidentes, Paul McCartney ainda foi acusado por um ativista Nigeriano de ter vindo para seu país para explorar os músicos locais. Seu acusador, o ativista politico e percussionista Ransome Kuti, foi ao estúdio para acusá-lo frente a frente. Paul prontamente mostrou o material e explicou que o que estava ali poderia ser gravado em qualquer lugar no mundo. A partir deste momento, Paul para evitar qualquer outro desintendimento, preferiu não convidar nenhum músico nigeriano a participar do projeto. Assim, é Paul que você ouve tocando congas.

Ginger Baker que estava morando em Lagos nesta época e tinha montando um estúdio lá, fez alguma pressão para que Paul gravasse em seu ARC Studios. Diplomata como Paul é conhecido por ser, tirou um dia para ir até o estúdio de Baker com a banda e lá gravaram Picassos Last Words. O chocalho que se ouve na canção é Ginger Baker e dois de seus empregados sacudindo um balde com carvão. Lentamente, as canções foram gravadas em camadas até que ao final de três semanas, haviam gravado as canções “Band On The Run”, “Jet”, “Bluebird”, “Mrs. Vanderbilt”, “Let Me Roll It”, “Mamunia”, “No Words”, “Picassos Last Words (Drink To Me)”, “Nineteen Hundred and Eighty Five”, e “Helen Wheels”, além dos instrumentais “Zoo Gang” e “Seaside Woman” (que acabaria sendo lançado com o nome “B Side To Seaside”) em 1977, Wings usando o pseudônimo de Suzie & The Red Stripes. De volta a Londres no dia 23 de Setembro, os trabalhos recomeçariam no album no inicio de outubro. AIR Studio que pertence ao amigo George Martin é utilizado para passar as fitas existentes em oito canais para dezesseis canais. O saxofonista de Liverpool Howie Casey (ex- Howie Casey & the Seniors) é chamado para colocar solos em “Bluebird” e “Mrs. Vanderbilt.” Também em Londres, através de uma sugestão do Ginger Baker, foi chamado o nigeriano Remi Kabaka para fazer percussões em “Bluebird.” Para o toque final, Paul McCartney chama Tony Visconti para arranjar e conduzir uma orquestra para unir a parte lenta inicial de “Band On The Run” com a segunda parte mais ritimada. Como as duas partes estão em tempos diferentes, Visconti conta que aqueles cinco compassos deram muito trabalho para serem tocados em perfeita sincronia com o que estava na fita já gravada. Para estes cinco segundos de musica, Visconti utilizou uma orquestra composta de cinqüenta e cinco musicos. O efeito conceitual seria o de representar a explosão, os naipes “furando” a parede prisioneira e a banda, ou bando, se tornando fugitiva. Visconti depois foi convidado para arranjar outras musicas no album, acabando responsável pelos arranjos do quinteto de saxofones em “Jet”, o quarteto de cordas em “No Words”, como também as cordas, clarinete e fagote em “Picassos Last Words”. Antes de terminarem as sessões e partirem para as mixagens, Wings ainda tiraram a oportunidade para gravar “Oriental Nightfish” com Linda McCartney nos vocais. A canção seria usado em 1978 para a trilha de um desenho animado do mesmo nome. As mixagens foram realizados em três dias no Kingsway Studios na primeira semana de outubro. As temáticas das canções não são necessariamente claras ou lógicas. Várias das historias contadas, a começar pela música titulo, não chegam a lugar nenhum. Segundo conta Paul, a letra de “Band On The Run” nasceu de uma frase dita por George Harrison durante uma reunião na Apple Records em 1969. A frase foi “If I ever get out of here”, corrigindo-se em seguida para, “if we ever get out of here.” Harrison na ocasião comentava como para ele, os Beatles eram como uma prisão. Paul pegou a frase e utilizou-a em uma música parcialmente inspirado no fato de que a polícia havia confiscado suas plantas de maconha encontrados em sua fazenda. Paul evitou ser preso alegando que ganhara várias sementes e sem saber do que se tratava, plantou tudo. McCartney denota a vontade da polícia de punir o uso de canabis embora permita legalmente o uso e abuso de álcool. Na mesma época integrantes de outras bandas como Eagles e Byrds estavam tendo problemas similares com a lei e Paul tenta escrever algo comentando que é o sistema que tenta colocar artistas como criminosos e não uma opção do artista. A canção não lida realmente com nenhum destes assuntos, embora estes tenham sido as faíscas iniciais de inspiração. Ao ler a letra de “Jet” por exemplo, fica claro que a canção não é sobre um jato, mais parece sobre uma menina. O nome é de um filhote negro de labrador do casal Paul e Linda. “Mamunia” é uma ode para os benefícios da chuva, coisa pouco conhecido em Los Angeles, mas intensos em lugares como Lagos. A palavra porém vem do árabe e significa ‘abrigo seguro.’ Em um passeio pelo Marrocos, Paul e Linda conheceram o hotel Mamounia que oferece um enorme e lindo jardim repleto de flores e vegetação. Mas esta não é a única canção cujo tema aparentemente nada tem a ver com seu título.
“Mrs. Vanderbilt” oferece uma fantasia como letra. A familia Vanderbilt é uma rica e influente família americana de Nova York cuja fortuna vem da ferrovia. Foram os donos originais do Grand Central Station, do Madison Square Garden e em outros tempos, possuiam o terreno hoje conhecido como o bairro do Bronx. “No Words” é tido por alguns como uma carta aberta para John Lennon. A canção é a primeira do Paul McCartney em parceria com Denny Lane. Há também muita comparação com John Lennon em relação a canção “Let Me Roll It.” Inclusive é o próprio Paul quem aponta para suas similaridades com “I Want You (She’s So Heavy)” ambas com uma estrutura e letra simplista.
“Helen Wheels” é o nome que o casal deram para o Jeep da família. O nome é um trocadilho com Hell On Wheels (Inferno sobre rodas). Paul tenta com essa letra descrever a viagem da Escócia até Londres via a M6, rodovia principal que liga o norte com o sul da ilha. É sua tentativa em criar uma letra inglesa dentro da mesma temática da canção “Back In The USA” de Chuck Berry, canção que cita diversas cidades americanas. Desta maneira, a canção cita cidades como Glasgow, Carlisle, Kendal, Liverpool, Birmingham e Londres. “Helen Wheels” não pertence ao disco e sim trata-se de um compacto do grupo lançado em final de outubro, dois dias antes da sessão de fotos que registrou a capa do disco. Seu lado B, “Country Dreamer” foi gravado no ano anterior na mesma sessão que produziu “Hi Hi Hi” e “Live And Let Die.” A canção portanto conta com Henry McCullough e Denny Seiwell. Contúdo, “Helen Wheels” é mencionada aqui pois acabaria entrando no álbum quase exclusivamente na prensagem americana. No Brasil, a canção saiu apenas em compacto no ano de 1974. “Picassos Last Words (Drink To Me)” tem suas diversas partes fatiados de propósito. Seria a forma musical encontrado por Paul de representar o cubismo tão celebre na obra de Pablo Picasso. A letra e música foram compostas na Jamaica enquanto o casal e familia estavam de ferias. Dustin Hoffman e Steve McQuenn estavam filmando Pappillion e as três celebridades se encontaram. Em um jantar, Hoffman muito intrigado sobre como funciona a inspiração de um compositor é informado por Paul que não é muito diferente de um ator. Surge um tema e se cria a partir deste tema. Em um segundo encontro, Hoffman começa a contar sobre um artigo na revista Time sobre a morte de Pablo Picasso e como na noite anterior ele havia brindado com os amigos dizendo “Bebam à minha saúde. Vocês sabem que não posso beber mais.” Picasso depois teria ido pintar até três da manhã antes de ir dormir. Acordou na manhã seguinte com dores no peito e sem conseguir se levantar, morrendo poucos minutos depois de um infarte. Paul pega então um violão e imediatamente começa a tocar e cantar a canção. Desde então, Hoffman comenta que depois de ver seus filhos nascerem, este foi o grande momento de sua vida. A de ver arte nascendo do criador diante de seus olhos. A parte em francês não é o próprio Picasso falando como muitos pensavam. Trata-se de um comercial sobre viagem retirado gravado de uma estação de rádio. Aqui Paul repete uma ideia utilizada em “I Am The Walrus” inserindo material aleatório retirado do rádio. A intenção é para reforçar o clima francês, nacionalidade do pintor. Já “Nineteen Hundred and Eighty Five” (1985) nasceu pura e simplesmente da frase “No one ever left alive in nineteen hundred and eighty five”, uma rima que Paul criou e achou interessante. O autor garante que não tem nenhuma relação consciente com 1984 de George Orwell.

Outro assunto que traz algumas perguntas é a confecção da capa do álbum Band On The Run. Nela vemos nove homens, vestidos iguais, supostamente com roupas de penitenciarios, pegos de surpresa por uma luz de holofote. A ideia é uma tradução óbvia para um disco que se chamaria Band On The Run - É creditado a Linda McCartney a ideia de trazer pessoas conhecidas para pousar para a capa, ao invés de simplesmente usarem modelos anônimos. São eles da esquerda para direita, Michael Parkinson, Kenny Lynch, Paul McCartney, James Coburn. Linda McCartney, Clement Freud, Christopher Lee, Denny Lane e John Conteh. Foram reunidos todos no domingo do dia 28 de outubro, a lado da parede lateral de Osterley House, uma casa construida no século 16 no terreno hoje conhecido como Osterley Park. O fotografo escolhido foi Clive Arrowsmith, que colocou um holofote de teatro sobre os personagens e de uma palanque, tirou várias fotografias. Linda também tirou várias polaroids do pessoal se preparando momentos antes de tirar as fotos.

Paul contratou a firma Hipgnosis para registrar a realização da sessão fotográfica para a capa, possivelmente movido pela experiência vivida na realização da capa de Sgt. Peppers, que não teve maiores registros afora uma série de fotos. Antevendo um possivel interesse futuro na realização desta capa, o registro em filme foi feito em 16mm e dirigido por Barry Chattington. Teve após edição e montagem, uma duração total de sete minutos e trinta e cinco segundos. O material acabou sendo utilizado primeiro durante a excursão americana dos Wings no ano de 1976. O álbum Band On The Run é lançando no dia 5 de dezembro nos Estados Unidos, e 7 de dezembro no Reino Unido. Com doze dias de vendas, o álbum se tornou disco de ouro. Seria votado pela revista Rolling Stones como Album do Ano e seria o disco mais vendido no Reino Unido durante o ano de 1974.

Grande sucesso comercial, se analisarmos atentamete, perceberemos que as canções no geral não oferecem necessariamente letras brilhantes, tampouco as músicas estão entre as melhores do compositor Paul McCartney. Entretanto, é um álbum onde a execução está primorosa, especialmente se analisarmos a bateria executada por Paul McCartney. Mas acima de tudo, há uma produção extremamente caprichosa. Este é o grande triunfo que Paul McCartney oferece no disco. Um gostinho de acabamento Beatle, encontrado em obras como Sgt. Peppers e Abbey Road.
No final de 2010, a revista “Clash” publicou uma entrevista com o nosso lendário Paul McCartney, querendo saber mais sobre o clássico álbum “Band on The Run” que foi recentemente relançado numa edição de luxo, com som remasterizado, DVD e tudo que um disco dessa importância tem direito.
Assim que os Beatles se separaram, Paul McCartney, escolhido como o vilão na queda rabugenta da banda, ganhou uma depressão, antipatia pública e críticas violentas, para então produzir sua própria obra de arte e emergir como uma proeminente força solo. Esta é a história de “Band On The Run”, segundo a imprensa, o ponto alto da carreira de Macca.
Quando mundo descobriu sobre o fim dos Beatles, Paul McCartney estava em sua fazenda na Escócia em Kintyre, se preparando para novas investidas musicais e pessoais. Seu primeiro solo foi lançado na semana seguinte ao “Let it Be”, o último álbum do grupo – o álbum solo estava pronto há algum tempo, mas Paul foi impedido de lançá-lo antes do canto do cisne dos Beatles. Foi a gota d’água num conflito fútil e ele declarou publicamente que a banda estava acabada, para o choque do mundo. Daí em diante, Paul estava por conta própria.
O caminho até “Band on The Run” foi cheio de indiferença e crítica. Entre 1970 e 1973, Paul reforçou seu grupo com sua esposa, Linda, o baterista Denny Seiwell e os guitarristas Denny Laine e Henry McCullough, e gravou quatro álbuns, cada qual com um estilo diferente e distintos conceitos de gravação e todos enfrentando variados níveis de depreciação. Quando os planos estavam sendo feitos para fugirem para Lagos, na Nigéria, a fim de gravar o quinto álbum, Paul McCartney tinha muito o que provar, e muito a perder – e esta gravação não seria um caminho tranqüilo. Em conversa com a “Clash” durante um merecido feriado após um verão de shows esgotados em estádios, Paul lembrou dos anos traumáticos que norteou um clássico.
A diversidade dos seus quatro primeiros álbuns solo foi você aproveitando a liberdade de trabalhar sozinho, ou foi você tentando se encontrar como um artista solo?
Eu acho que foram os dois. Eu certamente estava aproveitando a liberdade de apenas fazer algo diferente. Sempre fui assim, e ainda sou – é como o projeto “The Fireman”: de repente eu posso realmente tentar algo novo. E então, o outro elemento era que eu sabia que não poderia fazer uma cópia dos Beatles – eu sabia que era impossível; sem John, George e Ringo não havia nenhuma forma de se fazer isto. Eu sabia que teria que tentar fazer algo novo, então cada um dos álbuns foi uma tentativa de estabelecer uma identidade para os Wings (Nota do Tradutor: Banda que Paul montou após os Beatles) e que seria reconhecido com um tempo, como sendo o som dos Wings.
Após as diferentes reações a estes álbuns, “Band on The Run” soou como se você estava tentando provar algo. Foi este o caso? Você sentia que tinha que aparecer com alguma coisa especial?
Sim, de várias formas, porque dois dos caras (McCullough e Seiwell) deixaram a banda na noite anterior a irmos para Lagos fazer o disco. Aquilo foi como uma bomba. Imagine como eu fiquei quando recebi aquele telefonema: foi como, “ah, se controle, não se desespere. O que faremos agora? Dane-se, nós vamos”. E aquele momento foi como, “eu vou mostrar a eles. Vou gravar o melhor álbum que já fiz. Vou colocar todo meu esforço nele só para provar que nós não precisamos de vocês”.
Isto fez do álbum um disco raivoso?
Não acho que o disco seja raivoso. A primeira semana de gravação eu me sentia bem furioso. Mas que saber de uma coisa? A verdade é que eu supero as coisas bem rápido. Quer dizer, naquela noite foi, “merda”. Foi ruim – dois integrantes da banda caíram fora, sendo um o baterista, que uma peça central. Mas Denny tocava guitarra – já não estava tão ruim – e então eu pensei: “Bem, eu fiz o ‘McCartney’, posso tocar bateria, posso fazer isto e aquilo, e apenas vamos replanejar a coisa toda”. Mas houveram muitas dificuldades.
Foi o caso de ter que repensar as canções? Vocês viajaram com as canções planejadas e começaram de um esboço, ou começaram compondo novas canções?
Ainda não havíamos ensaiado nada com a banda – iríamos fazer os arranjos lá – mas eu tinha tudo planejado em minha cabeça. E sim, tivemos que repensar… Particularmente o método de gravação, que tinha que ser diferente. Só haviam três de nós – eu, Linda e Denny – para fazer a gravação básica, e então eu iria adicionar as partes que faltavam. Tivemos que repensar o que estávamos fazendo. Eu acho que as canções em si foram as mesmas – foi a instrumentação e os arranjos que mudaram. Mas por um lado eu achei que isto foi uma coisa boa, porque revisar as coisas nunca é a pior idéia.
Você foi assaltado quando estava em Lagos, e eles roubaram as fitas. Havia algo gravado nelas?
Sim, tinha tudo o que nós ja havíamos feito. Era a demo original de “Band on The Run”. Era algo que valeria algo no “E-bay” nos dias de hoje, sabe? Mas não, nós imaginamos que os caras que nos assaltaram não teriam nenhum interesse. Se eles soubessem, poderiam ter guardado e feito uma pequena fortuna. Mas eles são sabiam, e nós imaginamos que eles provavelmente gravaram algo por cima.
A frase em “Band on The Run” que diz “if we ever get out of this place”, aparentemente foi algo que George Harrison disse numa reunião dos Beatles. Isto significa que a canção se origina daquela época, ou era algo que estava apenas protelando em sua cabeça?
Não me lembro de ser uma frase de George. Não sei sobre isso. Mas sim, certamente tinha a ver com aquilo. Era simbólico: “if we ever get out of here… All I need is a pint a day” (Se algum dia sairmos daqui… Tudo que preciso é de um chopp por dia). O sentimento da coisa toda era este, porque nós fomos… Se você for pensar, começamos como uns garotos que adoravam a própria musica e que queriam ganhar um trocado para poder comprar uma boa guitarra e um bom carro. Era uma ambição muito simples no início. E então, você sabe, a coisa foi seguindo e se tornando reuniões de negócios e tudo aquilo, e eventualmente deixou de ser divertido. Você tinha que ir a todas estas reuniões, então havia um sentimento de “se um dia sairmos daqui”. E eu saí.
Quanto da briga entre você e os Beatles foi realmente rancorosa? No álbum há a canção “Let me Roll It”, que aparentemente é uma resposta a Lennon, mas as letras soam como um convite para serem amigos…
Bom, não, haviam outras canções que eram mais para este lado. “Let me Roll It” não foi para John, foi apenas no estilo que fazíamos nos Beatles e no estilo pelo qual John era reconhecido. Na verdade foi apenas o uso do eco. Foi uma daquelas coisas: “você não vai usar eco só porque John já o usou?”. Para dizer a verdade, ela fala mais sobre enrolar o baseado. Este era o duplo sentido lá: “Let me roll it to you” (deixe-me enrolar para você). Isto é o que estava por trás mais do que qualquer coisa. “Dear Friend”, do álbum “Wld Life” de 1971, foi um “vamos ser amigos?” para John.
O progresso criativo dos seus álbuns que falamos antes pareceu ter encontrado seu lugar em “Band on The Run” – dele em diante os álbuns pareceram ter um apelo popular muito forte. Você estava tentando consolidar o que fez e provar seu valor como artista solo, ao invés de se arriscar a receber críticas provocativas?
Não, foi apenas a forma que funcionou. Eu acho que apenas nos tornamos uma banda melhor. Eu descobri o que estava tentando fazer funcionar, que era “qual é o som do Wings?”. E uma vez que você consegue, você pode estar com ele. Os álbuns que vieram depois ainda eram diferentes, mas como já éramos populares, descobrimos o que nossos fãs gostavam. Então aí está seu estilo. Eu acho que é o que acontece com as bandas – certamente aconteceu com os Beatles e com o Wings: você começa imitando as pessoas e apenas brincando, tentando descobrir o que funciona e o que não funciona. E na época do “Band On The Run”, canções como “Band On The Run”, “Jet” e “Let Me Roll It”… de repente encontramos músicas com as quais as pessoas podiam se identificar. Me lembro de Richard e Karen Carpenter me telefonando para falar sobre “Jet” – eles eram as últimas pessoas na Terra que eu pensaria que gostariam de “Jet”, mas eles falaram, “oh, grande canção, cara”! Então, você sabe, estava ressoando nas pessoas. Eles estavam gostando das músicas. Por exemplo, ela é uma das preferidas de Dave Grohl. Novamente, não pensaria que seria a favorita dele. Então, sim, o que fizemos foi que encontramos nosso estilo e foi como, “ok, agora sabemos o que é o Wings”. Então meio que nos apegamos a isto e o ótimo é que agora elas são grandes números no meu show atual.
Há algum plano de fazer um show em comemoração ao aniversário do “Band on The Run” e tocar o álbum inteiro?
Me foi pedido para fazer isto, então irei analisar e considerar, mas não é uma idéia que um dia eu mesmo teria. Pode ser uma boa idéia, mas vou pensar a respeito.

3 comentários:

João Carlos disse...

O disco de Macca por excelência. Matéria supimpa!

Valdir Junior disse...

Verdadeiro compêndio do álbum. Disco fundamental na discografia do Paul e essencial na discoteca de qualquer um que goste de boa musica.

Marcelennon disse...

O melhor disco do Paul em toda a sua longa e genial trajetória. Outro disco assim, com todas as músicas excelentes, só em 1989, com "Flowers in the Dirt".