sábado, 11 de junho de 2016

PURE McCARTNEY - PAUL McCARTNEY TRAÇA MAPA REVELADOR DE SUA PRÓPRIA OBRA

"Se comparado ao melhor dos trabalhos anteriores com os Beatles, as canções em McCartney são decididamente de segunda classe", o comentário está na crítica de McCartney, álbum solo de Paul McCartney, em maio de 19670, no então jornal Rolling Stone. Langdon Winner, o crítico da RS, adverte aos fãs que o disco é decepcionante. Ram, o álbum seguinte do ex­beatle foi impiedosamente massacrado: "Ram é tão incrivelmente inconsequente e tão monumentalmente irrelevante, que se torna difícil se concentrar nele para que se possa gostar ou detesta­lo", disparou Jon Landau, que mais tarde ficaria conhecido como produtor de Bruce Springsteen.
Paul McCartney provavelmente deve lembrar, ter rido destas críticas ontem,  ao lançar Pure McCartney (Hear Music), uma retrospectiva de 46 anos de sua carreira solo, com quatro CDs na edição mais requintada, disponível também em CD duplo, vinil, ou digital (sai no Brasil, pela Universal Musical em CD duplo). O CD 1 é aberto com Maybe Im Amazed, balada do álbum McCartney, seguida por Heart of the Country, de Ram, canção pop folk, acústica, que Jon Landau considerou o ponto em que o álbum chegou ao nível mais baixo, a prova mais clara do fracasso do disco.
Numa biografia recém lançada, Paul McCartney ­ The Life, de Phillip Norman, Macca confessa que nessa época ele também chegou ao nível mais ralo de auto­confiança. Não por acaso, a terceira faixa do CD 1 é Jet, do álbum Band on the Run, de 1973. O quinto e, finalmente, elogiado álbum solo. Foi o terceiro com o grupo Wings, sob cujas asas se abrigou quando descobriu que fora dos Beatles ele era vulnerável, um vil mortal. Aos 74 anos, um dos poucos superstars dos anos 1960 que continua criando, na estrada e com um fã clube cada vez mais vigoroso, Paul McCartney é igualmente o derradeiro de uma linhagem iniciada no começo do século 20, a de autores de refinadas canções pop cujo o ápice aconteceu nos anos 1940, com os irmãos Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Hoagy Carmichael e Richard Rodgers.
A dupla Lennon & McCartney não foi, como se diz, o começo, mas o fim de uma era. Com a eclosão do rock and roll, o trabalho de composição passou para compositores muito jovens, compondo sob encomenda para intérpretes tão ou mais jovens quanto eles. Leiber & Stole, Barry Man & Cynthia Weil, Carole King & Gerry Goffim, Jeff Barry & Ellie Greenwich, Burt Bacarach, autores de dezenas de hits entre 1958 e 1964, ironicamente influenciaram os Beatles (alguns gravados por eles), mas foram tirados do mercado quando o quarteto de Liverpool aterrissou nos EUA, em 7 de fevereiro de 1964 e se tornou sucesso no mundo inteiro.
Lennon & McCartney não eram apenas compositores. Eles cantavam as próprias músicas. De repente, todo mundo estava fazendo o mesmo, praticamente acabando com o autor/fornecedor de hits para terceiros. A tensão criativa entre John Lennon, Paul McCartney e, mais tarde, George Harrison levou a dupla a se superar a cada disco, e cada um deles a superar a si mesmo em cada canção. Muitas duplas de autores surgiram nos anos 1960, a maioria já se aposentou ou virou autoparódia, como Jagger & Richards. Paul McCartney continua ininterruptamente, há quase seis décadas, um ourives artesão de canções pop. Perto dele, talvez Burt Bacharach que, aos 88 anos, raramente se apresenta. Assim, como McCartney, Bacharach foi reabilitado pela crítica nos anos 1980 (e redescoberto pela geração dos anos 1990). Até então não era considerado do primeiro time de compositores.
O conceito da coletânea, segundo McCartney, revela no site oficial, foi a de compor o repertório para se curtir como passatempo da viagem, ou animar festinhas e reuniões domésticas. A ordem é randômica. Nem segue a cronologia do lançamento das canções, nem é abastecida pelos hits, ao contrário das compilações convencionais feitas com a música dele. No CD 2, por exemplo, tem Band on the Run (1973, do álbum homônimo), e My Valentine (2012, do ignorado Kisses on the Bottom).
No quarto disco, ele aproxima a Hope for the Future, composta para a trilha do game Activision Destiny (2014), com o pop eletrônico Temporary Secretary (1980, de McCartney II), que causou estranheza, foi esquecida e virou hit nas pistas 30 anos depois. Pure McCartney é a mais ampla panorâmica feita da obra solo de Paul McCartney que, como curador deste projeto, pretende mostrar o quanto ousou, mesmo tendo errado várias vezes. Ele consegue reunir 67 canções, numa geral que poderia chegar facilmente às cem faixas. O que talvez cause estranheza, afaste dele parte do publico, é o fato de continuar extremamente melódico numa época em que a melodia cumpre papel menor na canção.

4 comentários:

Edu disse...

Se eu tiver grana, compro na hora que botar os olhos nele!

João Carlos disse...

A questão é que pode ser (tem cara) de mais do mesmo.E tudo misturado.

Marcelennon disse...

É meio complicado... Já tenho os todos os discos de carreira... E vai custar uma graninha boa... Se ainda viesse com algumas raridades (como "A Love For You", que descobri outro dia, aqui mesmo!)... Acho que vou passar batido nessa. A não ser que saia por um preço beeeeeeeeeeeem camarada...

Valdir Junior disse...

Essa coletânea é Demais-do-Mesmo. puro caça-níquel, nem mesmo na edição luxuosa e cara, trás algo de novo. Como não é prioridade, vai para fim da minha lista e mesmo assim se encontrar numa promoção. O Paul fica nos devendo algo mais consistente.