segunda-feira, 11 de abril de 2016

FREE AS A BIRD - SÓ OS BEATLES MESMO!

A lenda seguinte dos Beatles começou em Liverpool, na manhã de Ano-Novo de 1994. Paul a descreveu de modo tipicamente extraordinário: ele acordou de bom humor, após a celebração anual da família McCartney, e pegou o telefone para desejar boas festas à alguém que não via há algum tempo. "Ela ficou um tanto surpresa de receber meu telefonema, porque sempre fomos meio concorrentes no negócio do entretenimento", ele disse. "Mas ficamos conversando. Liguei para ela mais algumas vezes depois disso, ficamos mais próximos, e essa ideia surgiu". Talvez as coisas não tenham acontecido exatamente assim. Yoko Ono teria dito que a primeira vez que ouviu falar do assunto foi algumas semanas antes disso, quando recebeu uma ligação de Neil Aspinall e George Harrison. Eles queriam saber se ela deixaria os Beatles sobreviventes fazerem uma espécie de colaboração post-mortem moderna e digital, acrescentando suas próprias contribuições a uma canção inédita de John Lennon. "Como se pudéssemos fazer o impossível", Paul continuou. "Falei com Yoko sobre isso e ela disse que tinha três faixas, inclusive Free as a Bird. Algumas semanas depois, Paul foi a Nova York para assistir à inclusão de John no Hall da Fama do rock, como artista solo, e deu um abraço em público na viúva do homenageado, que já não era mais sua rival dentro do grupo. Em seguida, Yoko recebeu Paul em casa para lhe mostrar algumas fitas demo de John que haviam sobrado. "Fui para lá, para o Dakota, onde fiquei até tarde só tagarelando, tomando chá e me divertindo. E ela disse: 'Vou tocar as fitas para você!' E eu ouvi três canções: 'Grow Old With me', 'Free as a Bird' e 'Real Love'. Eu gostei de 'Free as a Bird' logo de cara. E pensei: 'isso é exatamente o que eu teria adorado fazer junto com John.' (...) Se John tivesse me mostrado essas três, eu teria dito: 'Vamos trabalhar primeiro naquela do meio". Por fim, Paul voltou para casa com algumas fitas contendo cerca de meia dúzia de canções, inclusive "Real Love", "Grow Old With Me", "Girls and Boys", "Now and Then" e "I Don't Want to Lose You". Alguns desses títulos podem ser versões diferentes da mesma canção, mas o certo é que Paul continuava voltando a "Free as a Bird". Ele levou a melodia para George e Ringo e, conforme a história que contou depois, teve o cuidado de dizer a Ringo "para deixar o lenço à mão". Em seguida, Paul apertou o botão de tocar e todos ouviram o velho amigo captado no piano da sala de visitas, em algum dia de 1977, cantando de modo agridoce, dizendo de forma melódica que a liberdade só não é melhor do que o conforto do lar. O fato de que John tivesse deixado a ponte inacabada (com algumas linhas de lá-lá-lás e uma modulação estranha na volta do verso) serviu para deixar Paul mais feliz — parecia tão mais próximo do velho processo original, do tempo em que ambos tinham o hábito de levar suas canções quase terminadas para que o outro ajudasse nas finalizações. Dessa vez, George e Ringo dividiriam as tarefas também, para que tudo fosse ainda mais inclusivo. Eles se reuniram no Moinho, no dia 11 de fevereiro de 1994, com o amigo de George e membro da banda Traveling Wilburies, Jeff Lynne, sentado na cadeira de produtor (Lynne era muito esperto na digitali-zação, e Martin havia se retirado da linha de frente das gravações em razão de problemas auditivos), e puseram mãos à obra. Mais entrevistas, mais mitos, mais lendas: antes que começassem a trabalhar, Paul aliviou as tensões dizendo aos outros que imaginassem que John apenas saíra de férias, deixando-os encarregados de finalizar sua canção. Durante aquelas horas, pelo menos, eles fingiriam que estava tudo bem no mundo. "Então, foi ótimo", concluiu Paul. "E nós fizemos isso de novo no ano seguinte." Certamente, nada era assim tão simples. George não gostou da letra que Paul esboçou para a ponte de "Free as a Bird" e disse isso a ele de forma clara. "E você sabe que, quando compõe há tanto tempo, espera que as pessoas gostem das suas letras", disse Paul. "Ele estava certo, mas as coisas ficaram um pouco tensas por um tempo." Depois disso, Paul se aborreceu quando começou a suspeitar que George e Lynne se juntariam para marginalizar o impacto dele na canção. "Eu senti, durante um período, no começo, que gostaria de ter algumas pessoas ao meu lado naquilo!" Em particular, quando desconfiou que Lynne sugerira a George que fizesse um slide com a guitarra, para que o disco se parecesse mais com exibições dele de solo do que com autênticas faixas dos Beatles. "Eu pensei: 'É 'My Sweet Lord' novamente.' É a marca registrada de George. John talvez tivesse vetado aquilo", afirmou Paul. Todavia, ele esperou para ver como tinha ficado o som, e mudou de ideia. "Percebi que ele tocou de maneira brilhante". As sessões de "Free as a Bird" acabaram correndo de forma relativamente tranquila, de modo que eles se reencontraram no moinho, no dia 22 de junho, para fazer o trabalho com "Now and Then". Dessa vez, porém, problemas técnicos — um zumbido recorrente e mudanças rítmicas na fita original de John — e inúmeras palavras que estavam faltando tornaram impossível completar a canção sem conhecer exatamente as intenções reais de John. A sessão foi logo interrompida, e George sugeriu que eles se mudassem para o estúdio de gravação que ele mantinha em Friar Park, sua adorada mansão em estilo gótico em Henley-on-Thames. O plano original era filmar os três beatles durante as gravações de uma nova versão de "Let It Be" para usá-la como ponto alto do Anthology. Sabe-se lá de quem foi a ideia, mas quando o sol ficou a pino e eles se juntaram para fazer o filme, George, e talvez Ringo, decidiu que aquilo era uma forma muito centrada em Paul de terminar o que deveria ser uma história de todo o grupo. Diante dessa resistência, eles deixaram as coisas de lado e saíram para caminhar juntos nas aleias arborizadas do jardim de George, deixando para trás câmeras e microfones, durante um longo tempo (talvez cerca de três horas), e clareando as ideias. O que disseram um para o outro ficou entre as plantas silvestres. De qualquer maneira, foi o suficiente para animá-los a voltar para o estúdio e pegar seus instrumentos (George e Paul nas guitarras acústicas; Ringo na bateria), e entreter as câmeras com velhos sucessos do tempo do Casbah, com bate-papos calorosos e, ocasionalmente, com o acompanhamento do uquelele (de George e, às vezes, de Paul) quando se reclinavam na grama ensombreada do jardim de George. É provável que nem todo o tempo do mundo, nem os encontros alegres, nem a história vivida em comum pudessem resolver toda a tensão que pairava no ar entre os Beatles. Ela é menos evidente quando eles estão conversando, e menos ainda quando estão tocando juntos, quando tudo parece estar na superfície. Por um lado, eles estão em perfeita sintonia — conseguem chicotear os velhos arranjos de "Roll Over Beethoven" e "Raunchy" com a mesma facilidade que teriam ao guiar uma bicicleta construída para três, tudo é memória muscular e reflexo. Com mais profundidade ainda, George consegue lembrar a introdução da guitarra de "Thinking of Linking", sendo que essa canção de Paul jamais passou da introdução e do primeiro verso. Então, Paul começa a agir como dono do espetáculo e George se retrai dentro de si mesmo. Ele não canta com o entusiasmo de Paul; seus olhares de soslaio parecem ressaltar que Paul está sentado mais perto da câmera do que ele. Será que ele estava pensando em John e sentindo falta dele? Ou será que George estava intuindo novamente aquilo que Paul confessaria mais tarde: que, independentemente de estarem ficando mais velhos, ele jamais deixaria de enxergar George como o irmão mais novo Apenas oito meses mais jovem, um homem de grandes realizações na indústria musical e cinematográfica, de grande espiritualidade e de surpreendente experiência de vida. Mesmo assim, aos olhos de Paul, jamais tão sofisticado, jamais tão realizado. Será que Paul algum dia pensou que George poderia ter percebido essa atitude e se ressentido dela? É difícil saber, mas George já tinha saído do banco quando Paul convocou-os para tocar "Blue Moon of Kentucky" e, quando se sentou outra vez, para atender ao chamado do companheiro, deixou claro que sua energia tinha arrefecido: "Só uma versão mais curta". Os olhos de Paul estavam brilhando, ele tinha total controle da música e do momento, exatamente como gostava. George tocou junto, acrescentando a baixa harmonia ao coro, de forma obediente. Mas ele não sorria, e seus olhos já se moviam furtivamente em direção à porta.O trabalho continuou. O grupo fez ainda uma sessão frutífera de dois dias com Jeff Lynne, em fevereiro, adicionando os instrumentos e vozes à fita demo de John com a canção inacabada "Real Love". Eles ainda tamborilaram um pouco "Now and Then", mas não chegaram a lugar nenhum. Em seguida, gastaram algumas tardes nos estúdios da EMI, em Abbey Road, no inverno e na primavera, ouvindo fitas de velhas sessões. Eles pareciam gostar imensamente da experiência e da companhia um do outro. Certa tarde, os três beatles pararam o trabalho e desceram até a cantina do estúdio, onde se serviram de saladas e xícaras de chá. O pedido adicional do grupo de rock mais popular e influente da história foi uma travessa extra de batatas fritas, para que pudessem dividi-la. Então, eles se sentaram juntos, comendo e rindo, exatamente como haviam feito durante as tomadas de "Love Me Do", em 1962. "Mais velhos e ligeiramente diferentes, talvez, mas ainda assim eram três beatles sentados ali", disse Paul. "E com quem? George Martin! E que caixas estávamos olhando? As verdadeiras caixas das sessões. E embora pareça bobo, juro por Deus que, enquanto tocávamos as fitas, eu rezava para não ter feito nada de errado". A ideia original era que terminassem três canções de John, inserindo cada uma em cada um dos três CDs do Anthology. Mas eles ficaram sem gás depois de "Real Love", e toda aquela empolgação acabou no final da segunda rodada, indicando que a terceira canção teria de ser feita sem o rótulo de novo produto dos Beatles. Todos concordaram que "Free as a Bird" deveria ser o número de abertura do Anthology: primeira faixa do primeiro CD e clímax do primeiro episódio televisionado da respectiva série de TV. Afinal de contas, era a primeira colaboração dos quatro desde Abbey Road. Mais importante ainda, era a primeira vez que os Beatles falavam em uníssono sobre a sua ruptura: o que significaram uns para os outros; o que perderam; o que sempre desejaram reivindicar, mesmo nas profundezas da amargura. Todavia, por mais que parecesse impossível que os Beatles jamais tivessem existido, e que pudessem se reunir como quarteto 25 anos depois do seu rompimento, e quase quinze anos depois de a mania criada por eles ter se tornado assassina, eles encontraram um jeito de fazer isso mais uma vez. Por apenas um tiquinho, menos de quatro minutos e meio, ali estavam eles novamente. Começa com Ringo determinando a batida, depois com a guitarra de George dobrando uma única nota sobre o piano de John, o baixo de Paul e o tarol de Ringo, baixo, bateria e o címbalo. Os quatro em uníssono, e o vocal de John se inicia. Freeee... a fita original em baixa frequência enfatiza a sua distância, como se ele estivesse reluzindo em outro plano. Que é exatamente o que acontece. Ele queria deixar sua mensagem e, de alguma maneira, magicamente, os pensamentos de John se cristalizam nos sentimentos de todos os outros. Paul aguarda apenas as quatro batidas para se juntar à harmonia do resto do pensamento inicial de John — asa birrrd. Então, finalmente, aconteceu. Eles estão juntos de novo, aquelas duas vozes que se combinam perfeitamente, cantando não apenas uma com a outra, mas uma para a outra; para George e Ringo também; para os Beatles. E está tudo ali, nas etapas de concepção e execução, na voz agridoce de John, no padrão agitado do baixo de Paul, na guitarra suave de George e na percussão precisa de Ringo. Elementos diversos em equilíbrio quase perfeito. Juntos, eles cantam o fim do grupo, a necessidade de fugir um do outro, para buscar a liberdade criativa e pessoal que os vínculos tão estreitos jamais possibilitariam. E foi exatamente isso que encontraram, mas com que objetivo? Como John admitiu, aquilo era apenas a segunda melhor coisa do mundo. Que vinha depois de estar em casa e protegido. E é para lá que ele imagina voar, um pássaro no céu vazio, agora um pássaro rastreador que se precipita de forma determinada em direção ao lugar de onde partiu. Na ponte recentemente escrita, Paul e George, na segunda vez, chamam por John com as próprias palavras. O que aconteceu conosco? Como nos perdemos uns dos outros? Em seguida, todos compreendem a mesma coisa juntos: a unidade criativa e espiritual que eles tiveram antes foi tão libertadora quanto qualquer outra coisa que experimentaram na vida. Uma interpretação sentimental, talvez. Então, eles chegam aos momentos finais da canção, um falso término que se funde com uma referência psicodélica incorporada a um acorde fatal, que se esvai num trecho de uquelele tocado em estilo de music-hall, que desaparece quando uma voz familiar resmunga qualquer coisa parecida com o jargão sem sentido dos bastidores. Eles pegaram um fragmento da fita que continha uma fala posterior de John que dizia "Isso ficou bom", e o colocaram no final. Só que, quando tocaram nos alto-falantes, ouviram uma coisinha a mais, tão clara quanto o dia: "Feito por John Lennon!" Os outros Beatles ficaram embasbacados. "Nenhum de nós havia escutado aquilo enquanto compilávamos as fitas, mas quando falei com os outros e disse 'Vocês não vão acreditar...', eles me responderam: 'Já sabemos, também acabamos de ouvir!", afirmou Paul. "E juro por Deus que ele realmente diz isso! Nem em um milhão de anos poderíamos saber o que aquela frase significaria antes. É impossível. Então, há mágica de verdade ali". Trecho extraído do livro de Peter Ames Carlin - "Paul McCartney - Uma vida".
Música mavilhosamente linda que é, Free as a Bird não poderia ser lançada sem um vídeo clipe simplesmente maravilhoso e à altura. O vídeo possui uma técnica de direção de fotografia inovadora, pois a câmera segue todo o tempo na primeira pessoa, tomando lugar da ave (Bird) que voa livre por Liverpool e Londres, mostrando toda a trajetória da banda e os lugares por onde os Fab Four passaram ao longo da infância e durante o tempo que estiveram juntos. Referências a Penny Lane, Paperback Writer, A Day in The Life, Eleanor Rigby, Helter Skelter e dezenas de outras são facilmente vistas, mas existem ao todo mais de 100 referências à música dos Beatles ao longo do vídeo, que foi produzido por Vincent Joliet e dirigido por Joe Pytka. Como não poderia ser diferente, o vídeo ganhou o Grammy Award for Best Short Form Music Video em 1997.

3 comentários:

Valdir Junior disse...

Emocionante é a palavra para essa musica, vídeo e momento.

João Carlos disse...

Essa é maravilhosa, agradável. Não entendo como não está entre os clássicos do grupo.

Ângela Balzan disse...

Linda demais, choro sempre que ouço.