domingo, 25 de junho de 2017

THE BEATLES - ALL WE NEED IS LOVE...


Em 1967, a equipe do canal londrino BBC convidou os Beatles a participarem do primeiro evento transmitido mundialmente via-satélite, ao vivo simultaneamente para 26 países. Esse trabalho envolveu redes de TV das Américas, Europa, Escandinávia, África, Austrália e Japão. Foi então solicitado que o grupo escrevesse uma música cuja mensagem pudesse ser entendida por todos os povos do planeta. John Lennon e Paul McCartney começaram a trabalhar separadamente em diferentes letras, até que Lennon acabou escrevendo esse clássico que se encaixou perfeitamente ao objetivo proposto, pois a mensagem de amor contida na canção poderia ser facilmente interpretada ao redor do mundo. A transmissão mundial dessa apresentação foi ao ar em 25 de junho de 1967. Rapidamente, ALL YOU NEED IS LOVE foi direto para 1º lugar de todas as paradas do 1º mundo!
E como sempre é de costume, com a mais absoluta exclusividade, somente aqui no Baú dos Beatles e da Cultura pop, em homenagem aos 50 anos de All You Need Is Love,a gente confere um capítulo inteiro do livraço "Minha Vida Gravando Os Beatles", de Geoff Emmerick. O engenheiro de som que viu tudo acontecer na frente dos seus olhos. Absolutamente imperdível!
Apesar de toda a diversão que estávamos tendo no estúdio, não há dúvi­da de que os Beatles estavam de fato bastante dispersos naquele momento. Richard e eu estávamos adorando aquelas sessões, mas George Martin come­çou a reclamar um pouco sobre a falta de produtividade da banda. Pessoal­mente, eu via como um pequeno alívio inofensivo depois de toda a intensi­dade que tinha sido colocada em Sgt. Pepper. A pergunta era: quanto tempo aquilo duraria antes que eles ficassem entediados? Mas naquela altura não havia tempo para o tédio. Dois meses antes, en­quanto ainda estávamos envolvidos com o trabalho de completar Sgt. Pepper, Brian Epstein fez uma de suas raras visitas ao estúdio. Com um movimento grandiloquente de suas mãos, ele pediu silêncio. “Rapazes”, ele anunciou,“eu tenho uma notícia fantástica para dar”. Os ouvidos de todos ficaram em alerta. Brian fez uma pausa dramática para dar ênfase. “Vocês foram seleciona­dos para representar a Inglaterra em um programa de televisão que, pela primeira vez, será transmitido ao vivo em todo o mundo via satélite. A BBC de fato irá filmá-los na gravação de seu próximo álbum.” O show, ele continuou explicando, se chamaria Our world, e era uma celebração de culturas ao redor do mundo. Ele olhou ao redor da sala com expectativa. Eu quase pensei que ele estava se preparando para fazer uma reverência. Para sua total decepção, a resposta do grupo foi... bocejar. Ringo se remexeu nos fundos da sala, ansioso para voltar ao jogo de xadrez com Neil, e George voltou a afinar sua guitarra. John e Paul trocaram olhares inexpressivos por um momento. Paul não parecia muito interessado; eu acho que ele provavelmente estava muito determinado a terminar Sgt. Pepper. Com uma visível falta de entusiasmo, John finalmente disse: “Ok. Vou fazer alguma coisa”. Brian ficou irritado com a reação indiferente do grupo."Vocês não estão animados? Não percebem o que isso significa para nós? Não têm ideia de quanto trabalho e esforço eu fiz para conseguir isso?”.
Lennon interrompeu-o com um comentário ácido: “Bem, Brian, isso é o que você ganha por nos comprometer a fazer algo sem nos consultar antes”. Epstein parecia próximo das lágrimas. Sem palavras, ele saiu batendo os pés do estúdio, em um chilique. Pelas conversas no estúdio que aconteceram depois que ele foi embora, eu deduzi que, ao invés de verem isso como uma grande conquista, os quatro Beatles viram aquilo como uma violação da sua autodeclarada intenção de nunca mais tocar ao vivo. Além do mais, eles se ressentiram com o fato de que o empresário havia apresentado aquilo a eles como um fato consumado. Eles estavam em um ponto em que eles queriam ter o controle das próprias carreiras. Com isso, o assunto foi esquecido... até que, algumas semanas depois, durante uma das sessões de “You know my name”, Paul perguntou casual­mente a John: “Como você está indo com aquela música para o programa de televisão? Já está quase pronta?”. John olhou interrogativamente para Neil, que tomava conta da agenda da banda. “Duas semanas, parece”, Neil respondeu depois de consultar seu livro esfarrapado. “Tão perto assim? Bem, então, acho que é melhor eu es­crever alguma coisa”. Essa “alguma coisa” que John Lennon escreveu — por encomenda e lite­ralmente em questão de dias — foi a canção “All you need is love”, que não só foi direto para o topo das paradas, mas serviu como hino para uma geração, a síntese perfeita da era ingênua e de olhos deslumbrados conhecida como o Verão do Amor. Em nossa perspectiva, aquele parecia mais o verão da loucura. Em um minuto, estávamos trabalhando em um ritmo tranquilo em dois projetos dis­tintos, simultaneamente, nenhum dos quais tinha uma data de término defi­nitiva, e no minuto seguinte, todo o complexo da Abbey Road foi lançado em um pânico total, porque a própria transmissão seria originada no Studio One. O projeto se desenrolou tão rapidamente, na realidade, que George Martin não conseguiu agendar a banda para qualquer um dos estúdios da EMI, então eles tiveram de gravar a base no Olympic; mais uma vez, para minha frustração, eu não pude fazer a engenharia de som da faixa e nem mesmo estar presente, porque eu era um funcionário da EMI. Quando eles voltaram, nós rapidamente organizamos três sessões na Abbey Road, durante as quais nós gravamos os backing. Não é preciso dizer que fazer playback para uma faixa pré-gravada era a maneira de agir mais segura, mas, em um acesso de bravata, Lennon anunciou que ele gravaria sua voz ao vivo, durante a transmissão, o que levou o sempre competitivo Paul a replicar que, se John ia fazer aquilo, ele também tocaria baixo ao vivo. Aquela me parecia ser uma decisão imprudente - embora corajosa. E se um deles cantasse ou tocasse uma nota errada na frente de milhões de telespectadores? Mas eles estavam extremamente confiantes e não puderam ser dissuadidos por George Martin, que era totalmente contra, mas, como estava acontecendo naquela altura, ele não tinha mais autoridade.
Em um ato de desafio ainda maior, John e Paul tentaram convencer George Harrison a fazer seu solo de guitarra ao vivo, o que todos nós sabiámos que era uma proposta traiçoeira; para minha surpresa, Harrison cedeu, sem muita discussão; minha sensação é de que ele estava com medo de ficar constrangido na frente de seus companheiros de banda. Somente Ringo estava completamente seguro, por razoes técnicas: se a bateria tosse tocada ao vivo, haveria muito vazamento nos microfones que captariam o som da orquestra. Ringo balançou a cabeça solenemente, concordando, quando eu expliquei isso para ele. Eu não sei dizer se ele ficou aliviado por ter se livrado da responsabilidade de tocar ao vivo, ou se ele se sentiu deixado de fora. A transmissão estava prevista para ser realizada em menos de uma semana, num domingo à noite. Nos dias que a antecederam, eu comecei a fumar um cigarro atrás do outro e tive insônia e dores de cabeça. Os outros funcionários da Abbey Road me alfinetavam sem parar, dizendo que não trocariam de lugar comigo por todo o chá na China. Eu entendia o que eles queriam dizer. Eu sabia que estava na berlinda: se alguma coisa, qualquer coisa desse errado com a parte do áudio ua transmissão, o dedo seria apontando diretamente para mim. Na noite de sexta-feira, no meio de uma prova de figurino, Brian Epstein chegou e fez uma reunião com George Martin e a banda na sala de controle do estúdio One, para discutirem se seria prudente fazer um lança­mento relâmpago da performance vindoura como um single. John, é claro, esta­va interessado — era a canção dele, afinal de contas — e não foi preciso muito estorço para conseguir que Paul fosse convencido também, uma vez que ele sabia o valor da publicidade maciça que eles receberiam graças à transmissão, garantindo assim uma grande venda de discos. Apenas George Harrison esta­va relutante; presumivelmente, ele estava preocupado de que ele pudesse fa­lhar em seu solo, apesar de ter apenas quatro compassos. Ele foi finalmente persuadido quando George Martin assegurou a ele que poderíamos ficar até mais tarde e depois fazer qualquer conserto que fosse necessário. A decisão, é claro, colocou ainda mais pressão sobre mim. Eu já não tinha de apenas fazer o som para a transmissão ao vivo — o caminhão da BBC, estacionado do lado de tora, receberia no monitor o sinal de áudio da mixagem que eu estaria fazendo enquanto os Beatles e os músicos da orquestra tocariam ao vivo —, mas eu tinha de ter tudo corretamente gravado em fita também.

Somando-se ao caos, havia a insistência de John em fazer uma mudança de última hora para o arranjo, o que deixou George Martin em frenesi - ele estava fazendo a partitura para a orquestra e teve de rapidamente fazer novas partituras para os músicos, que perambulavam impacientemente, esperando por ele. A seu favor, George veio com um arranjo espetacular, especialmente considerando o tempo muito limitado que ele teve para fazê-lo e a métrica estranha que caracterizava a música. "All you need is love" era de fato muito simples quando nos foi mostra­da pela primeira vez, mas ela foi ficando mais complicada conforme ia ga­nhando estrutura. Embora fosse uma composição de Lennon, notei que Paul estava tomando a frente em muitos aspectos, certamente em termos de fazer sugestões e interagir com os músicos clássicos, muitos dos quais (como o trompetista David Mason) tinham trabalhado conosco antes. Como George Martin quis permanecer na sala de controle, Mike Vickers, da banda Manfred Mann, foi recrutado para reger. De tarde, antes da transmissão, a equipe da BBC chegou e começaram os ensaios de câmera. A imprensa também foi autorizada a fazer uma breve sessão de fotos, mas quase não os notei - eu estava muito ocupado, concentrado nos desafios técnicos da transmissão ao vivo; havia muitas coisas que poderiam dar errado. Para desgosto do grupo, os fotógrafos ficavam gritando perguntas que não tinham nada a ver com a transmissão que aconteceria, isso porque Paul tinha dado uma controversa entrevista à BBC alguns dias antes, na qual ele confessara que havia tomado LSD. Os outros Beatles esta­vam com ele, mas eu podia dizer pelas suas expressões naquele dia que eles não estavam satisfeitos com a invasão indesejada naquilo que eles viam como suas vidas pessoais.
Logo recebemos a notícia de que o diretor de televisão queria colocar uma câmera na sala de controle para pegar imagens de nós três. Um George Martin claramente satisfeito se voltou para mim e disse: “E melhor vocês se arrumarem — vocês estão prestes a se tornar estrelas de televisão internacio­nais”, o que fez com que eu ficasse ainda mais nervoso! Em certo momento durante os ensaios de câmera, notei George Harrison conversando com o diretor de televisão por muito tempo. Eu não tinha ideia do que eles estavam falando, mas notei durante a transmissão que a câ­mera não estava voltada para George durante o seu solo de guitarra.Talvez ele tenha pedido isso especificamente, seja porque ele não tinha confiança em sua performance, seja porque ele sentia que era provável que ele substituísse o trecho mais tarde. Houve também certo problema com os microfones de voz que eu estava usando, que eram volumosos e aparentemente ofensivos para o diretor quan­to à estética. Mesmo que Paul e George fossem fazer playback de seus backmg vocais (que tinham sido pré-gravados, junto com a voz guia de John), Paul tinha pedido um microfone que funcionasse, para que ele pudesse gritar alguns improvisos. O problema é que o microfone que eu tinha colocado bloqueava o rosto de Paul no ângulo de câmera que eles queriam usar. No finall, eu concordei com o pedido do diretor de que um microfone menor fosse usado, mesmo que aquele não fosse o microfone que eu normalmente escolheria. Eu sentia que era improvável que qualquer coisa que Paul acabas­se improvisando fosse de grande importância para a gravação, e mesmo se fosse seria algo que poderíamos gravar por cima depois.
Os ensaios do fim de semana duraram horas, mas, de repente, já era do­mingo a tarde. Depois de completar uma breve passagem de som, George Martin convidou Richard e eu para sua casa próxima a Marble Arch, onde ele morava com sua esposa, Judy, para que pudéssemos descansar por uma ou duas horas antes da transmissão da noite. Judy nos fez sanduíches de cordeiro, que sempre foram os favoritos de George. Foi um belo gesto do sobrecarre­gado produtor, que estava, como nós, sob muita pressão. Infelizmente, eu não acho que lenha ajudado muito a nos acalmar. Eu simplesmente estava louco para que aquilo acabasse! Quando voltamos à Abbey Road, por volta das seis horas, os Beatles já se encontravam lá, vestindo suas melhores roupas da Carnaby Street, e os músi­cos em smokings, enquanto as celebridades convidadas — inclusive Brian Epsteín e várias estrelas do rock, esposas e namoradas — estavam começando a chegar. Havia uma verdadeira atmosfera de festa, semelhante àquela que nós havíamos presenciado durante os prévios happenings dos Beatles, mas Richard e eu ficamos impressionados pela forma como John estava visivelmente ner­voso, o que era bastante incomum para ele: nunca o tínhamos visto tão preo­cupado. Ele fumava como uma chaminé e bebia diretamente de uma garrafa, apesar das advertências de George Martin de que aquilo era ruim para a sua voz - um conselho que Lennon ignorou solenemente. Uma vez, quando eu passava, eu ouví John murmurando para si: “Oh, Deus, espero cantar certo a letra”. Naquela noite, ele foi forçado a confiar em sua memória, porque a folha com a letra que ele sempre usava teve de ser deixada de lado, devido ao angulo da câmera; se ele virasse a cabeça para consultá-la, cantaria fora do microfone. Paul dava a impressão de estar confiante, mas ele tinha um sorriso estranho e congelado plantado em seu rosto, que traía seus nervos em frangalhos. George e Ringo pareciam ser os mais calmos dos quatro, embora eu pudesse perceber alguma tensão na linguagem corporal deles também. À medida que a hora da transmissão se aproximava cada vez mais, era quase possível sentir a adrenalina enquanto o nervosismo crescia em todos nós.

Paul entrou na sala de controle em certo momento e passou algum tem­po trabalhando no som do baixo comigo. Isso me pareceu uma coisa inteli­gente a se fazer. Não somente ele estava se certificando de que seu instru­mento ficaria da forma como ele queria, mas sair do estúdio e ficar longe dos outros e da linha de fogo teve um efeito calmante sobre nós dois. Isso deu a ambos um pequeno santuário onde podíamos nos concentrar em apenas uma coisa específica, e não pensar sobre o monumental feito técnico que logo estaríamos tentando realizar. Graças à Lei de Murphy o caminhão da BBC perdeu a comunicação minutos antes de entrarmos no ar, então George Martin teve de retransmitir a instrução do diretor de “ficar a postos” para todos que estavam no estúdio, o que colocou uma pressão extra sobre ele. Um pouco antes do momento previsto para a transmissão começar, George e eu decidimos beber um gole de uísque para dar sorte. Richard quis se juntar a nós, mas George disse: “Não, é melhor você não”. Ele sabia que o trabalho de Richard era absolutamente crítico, porque ele tinha a tarefa de reproduzir a fita com a base a partir de uma máquina multitrack enquanto gravava simultaneamente a performance ao vivo em outra máquina. Se ele se enganasse e colocasse a máquina errada para gravar, teríamos um desastre em nossas mãos! Assim que os copos alcançaram nossos lábios, Murphy atacou mais uma vez.“Indo ao ar ... AGORA!”, nós ouvimos pelo interfone, inesperadamen­te. De acordo com o nosso relógio, eles estavam quarenta segundos adianta­dos. Mas não havia tempo para discutir ou debater o assunto. Instintivamente George e eu tentamos loucamente esconder a garrafa e os copos debaixo da mesa de mixagem antes que a câmera da sala de controle nos pegasse beben­do. Felizmente, conseguimos completar a operação segundos antes de a luz vermelha se acender. Considerando o pânico de última hora, eu acho que George fez um bom trabalho ao recuperar sua compostura, parecendo ele­gante em seu terno branco à la Casablanca. Após um momento de pausa, enquanto ele recebia instruções do caminhão da BBC, ele colocou o microfone de comunicação em frente à sua boca e disse: “Pronto, Geoff?"
Eu estava... mas, ao mesmo tempo em que a pergunta foi feita para mim, eu também ouvi o som desconcertante de uma fita sendo enrolada de novo; obviamente, Richard não estava tão pronto como o resto de nós. Tentei ganhar tempo. “Hummm... pronto, Richard?”, eu murmurei tão lentamente quanto pude, enquanto meu assistente aterrorizado olhava im­potente para o gravador, ainda rebobinando. O problema era que, enquan­to o caminhão de televisão da BBC estava passando o vídeo de introdução do programa, nós devíamos estar reproduzindo uma pré-mixagem iniciai da canção, completa com a guia de voz de John, como pano de fundo para o que estava acontecendo na tela. Então, enquanto Steve Race, o locutor, começou a apresentar o nosso segmento, Richard teve de rebobinar e ra­pidamente mudar as bobinas; aquele era o trabalho que não estava total­mente completo quando George se voltou para nós. Foi apenas uma ques­tão de segundos antes de Richard conseguir resolver aquilo e tudo ficar pronto para ir ao ar, mas naquela sala de controle apertada e quente aquilo pareceu durar uma eternidade. Finalmente chegamos ao momento da verdade. George Martin falou aos quatro Beatles, suas esposas, amigos e orquestra: “Ok, todos a postos... lá vamos nós!”, e a transmissão começou. Do início ao fim, tudo durou apenas quatro minutos, mas pareceram horas. Foi angustiante, com certeza, mas por algum milagre não houve problemas técnicos de nossa parte. Durante poucos segundos a transmissão ao vivo da BBC de fato perdeu o sinal de vídeo, mas, felizmente, esse foi recu­perado rapidamente, e, de qualquer maneira, não foi culpa nossa, Os próprios Beatles fizeram uma performance inspiradora, mas dava para ver a expressão de alívio em seus rostos à medida que a música foi acabando e eles perceberam que realmente haviam conseguido fazer aquilo. John passou por tudo como um artista experiente, fazendo um vocal surpreendente, apesar de seu nervo­sismo e do chiclete em sua boca, que ele havia esquecido de jogar fora antes de irmos ao ar, O desempenho de Paul, como sempre, foi sólido, sem gafes, e ate mesmo o solo de George Harrison foi razoavelmente bom, embora ele tenha dado uma nota errada no final. Sem surpresa, apesar da partitura com­plicada e das complexas mudanças de tempo, os músicos da orquestra passaram por tudo aquilo como os profissionais que eles eram, sem nenhuma falha de qualquer tipo, mesmo nos riffs de metais mais exigentes.
Nosso plano ambicioso, ou ate mesmo um pouco louco - era tentar conseguir que a mixagem final de“All you need is love” fosse enviada para a fábrica naquela mesma noite para que o disco pudesse estar nas lojas antes do fim de semana, mas nós sabíamos que demoraria um pouco para que todos os músicos, convidados e técnicos arrumassem as coisas e fossem em­bora, de modo que o resto da sessão foi agendado para o StudioTwo. Enquanto a mudança estava sendo feita, Richard e eu tivemos permissão de George Martin para ir até lá fora para um rápido drinque de comemoração no Abbey Tavern, ali perto. Eu estava encharcado de suor, tanto pela tensão nervosa quanto pelo calor da noite, e, enquanto caminhávamos os poucos quarteirões ate o pub eu ficava repetindo para mim: “Meu Deus, como estou feliz que isso acabou! Quero uma bebida!”. Richard e eu estávamos tremendo, rindo e emocionados, enquanto brindávamos um ao outro no pub barulhento, mas tínhamos prometido a George que não demoraríamos, e que nós nos limita­ríamos a uma única dose de bebida... com meio litro de chaser. Ainda assim, aproveitamos esse momento extra e, quando voltamos, qua­se às 23h, a sessão de mixagem estava prestes a começar. George tinha cha­mado Martin Benge, o engenheiro de manutenção de plantão, para deixar prontos os gravadores. Desde a primeira reprodução, os quatro Beatles fica­ram impressionados com o que estavam ouvindo. Harrison se encolheu um pouco durante seu solo tle guitarra, mas Richard tomou a iniciativa e lhe deu segurança,dizendo:44Vai ficar bom, nós colocaremos um pouco de wobble nele e ficará ótimo”. No final, tudo o que tínhamos a fazer era adicionar o efeito e abaixar a última nota ruim. O baixo de Paul estava ótimo - não havia necessidade de corrigir nada e o vocal de John precisava que apenas duas frases tossem regravadas no segundo verso, onde, como se esperava, ele havia errado a letra. A única coisa que faltava era refazer o repinicar da caixa que Ringo havia tocado na introdução da canção. Havia sido uma decisão de ultima hora que ele fizesse daquela forma, ao vivo, durante.a transmissão, e George Martin sentiu que poderia ser melhorado um pouco! Hoje em dia, quando as gravações de shows ao vivo são frequentemente alteradas no estúdio posteriormente, a um ponto em que dificilmente algo da verdadeira apresentação permanece, pode parecer inacreditável, mas é verdade: as únicas coisas que foram substituídas em “All you need is love” para o lançamento do disco foram o repinique da caixa no início e duas frases do vocal principal.
Os overdubs não demoraram tanto tempo para serem feitos, mas todos nós estávamos exaustos com os acontecimentos do dia, então George Martin tomou a decisão de adiar a mixagem por 24 horas para que pudéssemos vol­tar novos em folha. Rejuvenescidos e revigorados por uma boa noite de sono, conseguimos completar a mixagem rapidamente, e a fita foi então transferida para o vinil por Ken Scott, que estava sendo treinado como engenheiro de masterização. O single ainda conseguiu sair até o final da semana, só que che­gou às prateleiras em uma sexta-feira, em vez de quinta-feira, o que pareceu não prejudicar as vendas. “All you need is love” foi direto para o número um e permaneceu no topo das paradas por várias semanas. Depois de toda a pressão — e do triunfo definitivo - da transmissão, os Beatles decidiram reservar a maior parte de julho e agosto para tirar ferias, fazendo apenas um punhado de gravações em estúdios externos. Certa vez, Paul me ligou e me pediu para acompanhá-lo em uma sessão que ele estava produzindo para o seu irmão, Mike, no pequeno estúdio no porão de Dick James, no West End de Londres. Paul apareceu vestido com o uniforme que ele usou na capa do álbum Sgt. Pepper, com seu trompete pendurado no ombro. Se ele estava querendo atenção, no entanto, ele não a conseguiu: era um domingo e a rua estava completamente deserta. Na verdade, nós tivemos alguma dificuldade para conseguir entrar. Isso marcou a primeira vez que Paul e eu trabalhamos fora da Abbey Road.., e era algo que eu não poderia fazer. Mas tudo foi muito informal — a garrafa de uísque apareceu em certo ponto e nós nos divertimos; eu até mesmo toquei piano em uma das faixas. Mais tarde, naquela noite, Paul nos deu carona para casa em seu Aston Mar­tin. Foi uma emoção muito grande percorrer as ruas desertas de Londres com tanto luxo.

5 comentários:

Marcio Pereira disse...

É do que o mundo precisa e sempre precisou.

Joelma disse...

John inspirado

Benilson Silva disse...

Tudo saiu perfeito, como deveria... mas nesse vídeo, senti falta do tradicional baixo do Paul.

Valdir Junior disse...

Uma coisa que gosto muito nesse livro do Geoff Emmerick é saber esses bastidores dos estudios, conhecer realmente como as coisas eram feitas e de que jeito e situação. Mesmo na correria e na obrigação, o John criou uma obra prima.

Júlio disse...

Mais um clássico eterno!!